ACESSO, DIVERSÃO E ARTE Como a audiodescrição no cinema e outras iniciativas ampliam a inclusão e o acesso a diferentes expressões artísticas


ACESSO, DIVERSÃO E ARTE

 

Como a audiodescrição no cinema e outras iniciativas ampliam a inclusão e o acesso a diferentes expressões artísticas

17 JUL 2020 | COMPORTAMENTOS EMERGENTES

POR TELECINE

Você já imaginou como pessoas com deficiência visual vão ao cinema sem poder enxergar a ação projetada nas telas? Ou como crianças surdas assistem a desenhos animados sem ouvir o que os personagens estão dizendo? Como essas diferentes expressões artísticas chegam até as pessoas com deficiência (PCD)?

Quando se fala de acessibilidade, as ideias mais comuns e imediatas normalmente envolvem infraestrutura e inclusão social por meio da educação e do esporte. Contudo, outra faceta deste tema crescentemente debatida diz respeito às intervenções de comunicação e linguagem visando à imersão das PcDs em experiências de lazer, entretenimento e cultura.

EM 2018, 161 MILHÕES DE PESSOAS FORAM AO CINEMA NO PAÍS, E SEGUNDO A KTALISE, EMPRESA DE TECNOLOGIA ESPECIALIZADA EM ACESSIBILIDADE, OS DEFICIENTES AUDITIVOS E VISUAIS SOMARIAM CERCA DE 4% NO PÚBLICO QUE HOJE FREQUENTA ESSES ESPAÇOS.

Com a intenção de promover a inclusão de cegos e surdos, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146), em seu Artigo 67, define que “serviços de radiodifusão de sons e imagens devem permitir o uso de subtitulação de legenda oculta, janela com intérprete de Libras e audiodescrição”. 

Audiodescrição é a tradução da experiência emocional das imagens em palavras, ou seja, uma descrição objetiva que, em conjunto com as falas originais, possibilita que pessoas com deficiência visual compreendam integralmente os conteúdos audiovisuais. 

O profissional que faz a audiodescrição tem o desafio de produzir uma tradução que não prejudique as interpretações individuais de cada espectador com deficiência.

Na televisão brasileira a audiodescrição é obrigatória desde 2011. Atualmente os canais são obrigados a exibir no mínimo seis horas por semana de programação com esse recurso.

 

No YouTube, canais como o da Turma da Mônica disponibilizam episódios com o recurso da audiodescrição.

Já nos cinemas, divergências e atrasos sobre os prazos de implementação da acessibilidade pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) ainda impossibilitam que o recurso seja amplamente utilizado e a inclusão efetivamente aconteça em todo o Brasil.

Realidade nos Estados Unidos desde os anos 1970, a audiodescrição é relativamente recente por aqui. Iniciativas como o Festival Melhores Filmes, do Cinesesc, em São Paulo, começam a promover a inclusão dos cegos às salas de cinema exibindo películas com legendas abertas (detalhadas) e audiodescrição executada ao vivo.

AUDIODESCRITOR-ROTEIRISTA

elabora o texto e indica os pontos de inserção das descrições (não pode haver sobreposição com os diálogos do filme, por exemplo)

AUDIODESCRITOR-NARRADOR

faz a locução desse texto

TÉCNICO DE ÁUDIO

faz a gravação, a edição e a mixagem da audiodescrição com o áudio original da obra

REVISOR COM DEFICIÊNCIA VISUAL

faz a revisão e avalia a clareza das informações e a qualidade geral do trabalho

E é do próprio cinema que surgem exemplos do poder da comunicação com pessoas com deficiência e da diferença de detalhamento e complexidade entre a mera descrição que as pessoas normalmente fazem para esse público e o trabalho delicado e complexo dos profissionais da área de audiodescrição.

Em uma das cenas mais famosas do filme francês “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (2001), de Jean-Pierre Jeunet, a personagem principal narra a um transeunte cego todos os detalhes da paisagem ao redor. Embora poética, a cena demonstra um ponto de vista individual sobre o mundo ao redor sendo transmitido a alguém que não pode enxergá-lo.

Já no japonês “Esplendor” (2017), de Naomi Kawase, a interação entre uma jovem dubladora que trabalha com audiodescrição e um fotógrafo que perde gradualmente a visão em decorrência de uma doença degenerativa funciona como epicentro de uma reflexão poética a respeito dos significados de “ver”, colocando em discussão a responsabilidade de colocar os próprios sentidos a serviço de quem não consegue apreender a magia do cinema por conta própria. 

INICIATIVA INÉDITA

Não são somente as pessoas com deficiência visual que sofrem com a falta de acesso às produções audiovisuais. No entanto, surgem iniciativas que buscam reverter esse quadro e ampliar a inclusão, especialmente do público infanto-juvenil.

 

Após uma tentativa de comunicar-se sem sucesso com uma jovem surda e se deparar com a escassez de produções voltadas a este público, o diretor de animação Paulo Henrique dos Santos decidiu criar o projeto “Min e as mãozinhas”, o primeiro desenho animado em Libras, a língua brasileira de sinais. 

A animação é voltada para crianças surdas com idade entre três e seis anos e contou, em sua elaboração, com a colaboração de uma equipe de professores e intérpretes. A intenção é que a cada episódio, incluindo o piloto, sejam ensinados cinco sinais de libras. Outra particularidade é a atenção dispensada aos áudios do desenho, por meio do uso de sons mais percussivos que ressaltem a vibração percebida pelas pessoas surdas, ou de onomatopeias no caso de sons mais sutis. 

Por meio de um financiamento coletivo, o primeiro episódio já está no ar no YouTube e a ideia é criar mais 13 para uma temporada completa. Segundo o diretor, a ideia surgiu a partir da constatação do quanto os brasileiros ainda não estão preparados para se comunicarem com pessoas que apresentam algum tipo de deficiência auditiva. 

Fonte: IBGE

Arte: Gabriela Costa / Imagens: iStock by Getty Images e Flat Icon / Texto: Renato Barreto

 

Fonte: https://gente.globo.com/acesso-diversao-e-arte/


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