Assim serão as próximas crianças geneticamente modificadas


Assim serão as próximas crianças geneticamente modificadas

O congresso mundial de edição genética termina com um sinal verde para futuros ensaios clínicos e com sugestões de genes nos quais interferir

MANUEL ANSEDE

02 DEC 2018 - 16:44BRST

Uma pesquisadora mostra a atuação sobre o gene PCSK9 em um embrião, em um laboratório de Shenzhen (China).

Uma pesquisadora mostra a atuação sobre o gene PCSK9 em um embrião, em um laboratório de Shenzhen (China).AP/MARK SCHIEFELBEIN

Já há dois tipos de pessoas: as geneticamente modificadas e as naturais. O polêmico experimento do cientista chinês He Jiankui mudou a humanidade para sempre. Desde segunda-feira passada, quando anunciou o nascimento de duas gêmeas com seu DNA modificado, a pergunta já não é quem se atreverá a dar o primeiro passo, e sim quais serão os limites para transformar a próxima geração de seres humanos. “Será impossível evitar a existência de um mercado clandestino de edição genética. As pessoas vão querer uma criança perfeita e estarão dispostas a pagar muito para ter uma. Podemos estar apenas diante do começo de um mercado clandestino da perfeição”, alerta o filósofo Julian Savulescu, diretor do Centro Uehiro para a Ética Prática da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Em cada minúscula célula humana há dois metros de moléculas de DNA dobradas de maneira quase inconcebível. Nesses dois metros há 22.000 genes, com a informação necessária para construir e fazer funcionar uma pessoa. Um desses genes, o CCR5, contém as instruções, escritas com 6.000 letras, para fabricar uma proteína que o vírus da AIDS utiliza como porta de entrada para os glóbulos brancos do sangue. No entanto, em algumas pessoas faltam 32 letras nesse gene, e isso as torna imunes ao vírus da Aids. É uma mutação natural que ocorre apenas uma pequena porcentagem de pessoas (1% no caso dos europeus).

“Será impossível evitar a existência de um mercado clandestino de edição genética”, alerta o filósofo Julian Savulescu

O experimento de He Jiankui consistiu em tentar imitar essa mutação natural. O pesquisador chinês injetou em embriões de algumas células o CRISPR, uma espécie de tesoura molecular capazes de cortar o DNA onde se deseje. O problema é que a técnica experimental, criada em 2013 e ainda em aperfeiçoamento, comete erros. Os resultados, se não forem uma gigantesca fraude, mostram que só uma das meninas apresenta a mudança desejada − e que as duas irmãs exibem mutações indesejadas e de efeitos desconhecidos, que seriam herdadas por seus filhos. É um estrago sem nenhuma vantagem médica: os embriões estavam saudáveis antes de He Jiankui decidir interferir neles.

“O fato de que o primeiro exemplo de edição da linhagem germinativa humana [uma mudança que pode ser transmitida para a geração seguinte] tenha sido um passo em falso não deveria nos levar, de forma nenhuma, a enfiar a cabeça na areia e a não considerar os aspectos muito positivos de um caminho mais responsável para um uso clínico”, expôs na quarta-feira George Daley, reitor da Escola Médica de Harvard.

Daley interveio no mesmo congresso mundial de Hong Kong no qual He Jiankui detalhou, minutos depois, seu experimento. O reitor de Harvard mostrou ao público uma espécie de roteiro, com “uma série de potenciais aplicações [da edição genética em embriões], algumas das quais provocarão mais entusiasmo que outras”. No extremo menos necessário, ele colocou as “melhorias” genéticas, um eufemismo para se referir à eugenia pura e simples, como a atuação sobre o gene MSTN para aumentar a massa muscular. O procedimento já foi feito em animais de criação para produzir mais carne.

“Eu ficarei surpreso se as primeiras indicações que considerarmos mais viáveis não forem aquelas contra doenças muito devastadoras”, disse Daley. A primeira de sua lista é a doença de Huntington, uma patologia causada por um defeito hereditário em um único gene que desencadeia o desgaste progressivo dos neurônios do cérebro. Não tem cura. Os afetados morrem, em média, 13 anos antes que o restante da população.

A segunda na classificação é a doença de Tay-Sachs, outro transtorno hereditário raro e assustador. Uma mutação em um gene, frequente entre os judeus asquenazes europeus, gera o acúmulo de uma substância gordurosa no cérebro. As crianças morrem antes dos quatro anos. Daley acrescentou em sua lista outras duas doenças causadas por um único gene defeituoso: a fibrose cística, caracterizada pela formação de um muco espesso potencialmente letal nos pulmões, e a anemia falciforme, que deforma os glóbulos vermelhos em pessoas de origem africana.

“Não vamos poder parar isto. O CRISPR é uma técnica barata que não precisa de muito pessoal”, afirma o especialista em bioética Íñigo de Miguel

“A cúpula de Hong Kong é a primeira na qual já se fala abertamente em modificar a linhagem germinativa humana. Não vamos poder parar isto. O CRISPR é uma técnica barata que não precisa de muito pessoal”, afirma Íñigo de Miguel, especialista em bioética da Universidade do País Basco. “Temos de enfrentar o debate já, porque vai marcar nosso futuro. Dentro de 20 anos podem nos dar a escolher entre ter um filho com a loteria genética da reprodução sexual ou tê-lo por fertilização in vitro com opções para editá-lo geneticamente”, acrescenta. Ele considera que não se deve frear as pesquisas, e sim acelerá-las, para dominar a tecnologia e poder reverter qualquer ação inaceitável.

O reitor de Harvard apresentou uma opção mais polêmica: modificar genes não vinculados a um distúrbio catastrófico, mas simplesmente a um risco maior ou menor de ter uma doença, como o CCR5 manipulado por He Jiankui. São hipotéticas vacinas genéticas. Para Daley, os principais candidatos são o gene PCSK9, associado a doenças cardiovasculares; o A673T, que tem um papel de proteção contra o Alzheimer; e os genes BRCA1 e BRCA2, cujas alterações podem resultar em câncer de mama ou de ovário.

Em seu livro A Crack in Creation: Gene Editing and the Unthinkable Power to Control Evolution (“uma quebra na criação: edição de genes e o poder impensável de controlar a evolução”), pulicado em 2017, a geneticista norte-americana Jennifer Doudna confessou seus pesadelos. Doudna, uma das mães da técnica CRISPR, narrou que certa noite sonhou que Adolf Hitler, disfarçado com uma máscara de porco, perguntou-lhe sobre sua revolucionária tecnologia. Na quinta-feira, Doudna assinou a declaração final do congresso mundial de Hong Kong: “Os riscos são grandes demais para permitir ensaios clínicos de edição da linhagem germinativa humana neste momento. No entanto, o progresso nos últimos três anos e as discussões na cúpula atual sugerem que chegou a hora de traçar um caminho rigoroso em direção a esses ensaios”. Ultrapassada a linha vermelha, já não há volta.

Fonte: 

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/30/ciencia/1543575899_503636.html

 

Cientista russo pretende criar mais bebês modificados geneticamente

Denis Rebrikov planeja experimento semelhante ao já feito na China, apesar da rejeição internacional

MANUEL ANSEDE

 

11 JUN 2019 - 16:59BRT

O biólogo molecular russo Denis Rebrikov.

O biólogo molecular russo Denis Rebrikov.

Pouco mais de meio ano depois do nascimento dos dois primeiros bebês geneticamente modificados, na China, um cientista russo anunciou que pretende realizar outra experiência similar, apesar da rejeição unânime da comunidade internacional. O pesquisador Denis Rebrikov planeja alterar em laboratório o DNA de embriões de mães com vírus HIV, a fim de evitar sua transmissão ao recém-nascido, segundo informou à revista Nature.

Rebrikov, um biólogo molecular, dirige um laboratório na maior clínica de fertilidade da Rússia, o Centro Nacional Kulakov de Pesquisa Médica em Obstetrícia, Ginecologia e Perinatologia de Moscou. Como no caso do cientista chinês Hei Jiankui, sua intenção é modificar o gene CCR5, que contém as instruções para fabricar uma proteína que o vírus da AIDS emprega como porta de entrada para os glóbulos brancos do sangue. Rebrikov pretende imitar uma mutação natural, presente em 1% dos europeus, que gera certa imunidade ao vírus. Para isso é necessário apagar 32 das 6.000 letras do gene mediante a revolucionária técnica CRISPR, uma espécie de tesoura molecular capaz de cortar o DNA onde o cientista quiser — embora ainda ocorram erros perigosos.

Rebrikov planeja alterar o DNA de embriões de mães com o HIV para evitar a transmissão do vírus

“Alterar o genoma humano no embrião é uma nova estratégia para a qual ainda não há nenhuma legislação adequada nem uma percepção pública positiva. Nossa sociedade é muito conservadora”, declarou Rebrikov em outubro passado ao jornal russo Pravda.

“A tecnologia não está preparada”, adverte agora na revista Nature a bióloga molecular Jennifer Doudna, uma das mães da técnica CRISPR, em seu laboratório da Universidade da Califórnia em Berkeley. Sobre o anúncio do cientista russo, Doudna acha que “não é surpreendente, mas sim decepcionante e inquietante”.

Em 29 de novembro de 2018, a segunda cúpula internacional sobre a edição do genoma humano, realizada em Hong Kong, terminou com a advertência de que “os riscos são grandes demais para permitir ensaios clínicos de edição da linha germinal humana neste momento”. Rebrikov, entretanto, confia na segurança da técnica. Em outubro, o russo publicou, em uma desconhecida revista que ele mesmo dirige, uma pesquisa cujos resultados mostram uma suposta eficácia de 50% na criação de embriões com o gene CCR5 alterado.

Rebrikov, segundo a informação publicada pela Nature, considera que conseguirá a autorização oficial para a pesquisa graças a passagens ambíguas na lei russa. O cientista chinês Hei Jiankui justificou seus experimentos alegando que o pai das gêmeas tinha HIV. No caso russo, Rebrikov pretende recrutar mães soropositivas que não respondem aos principais tratamentos com antirretrovirais, uma abordagem que atualmente evita muitos casos de transmissão vertical do HIV.

A imunologista Denise Naniche recorda que já existe “um arsenal de fármacos” para evitar a transmissão materno-infantil do HIV

A imunologista Denise Naniche, chefe do grupo de HIV/AIDS do Instituto de Saúde Global de Barcelona, acredita que a ideia de Rebrikov não tem fundamento. Entre 15% e 45% das mães soropositivas transmitem o vírus a seu filho durante o parto ou lactação, mas os atuais tratamentos reduzem esse percentual a menos de 5%, segundo a Organização Mundial da Saúde. “As mulheres às quais o pesquisador se refere vivem em regiões que nunca teriam acesso a uma hipotética intervenção de edição genética de embriões, por seu custo e pela falta de infraestrutura”, observa Naniche. Cerca de 85% das transmissões do HIV de mãe para filho ocorrem na África Subsaariana, salienta.

Naniche recorda que já existe “um arsenal de fármacos antirretrovirais” que permite mudar de terapia quando o vírus resiste ao primeiro tratamento. O problema é o preço desses medicamentos de segunda linha. Para a imunologista, seria “muito mais ético e eficiente em relação com seu custo” facilitar estes tratamentos nos países pobres.

O químico Marc Güell foi testemunha do nascimento da técnica CRISPR na Universidade Harvard. O pesquisador, agora na Pompeu Fabra, de Barcelona, vê “a necessidade de aprender mais sobre a tecnologia mediante experimentos em ciência básica e cogitar sua aplicação possivelmente em alguns casos muito concretos de enfermidades graves”, mas não entende a escolha do gene CCR5. “Neste caso não acredito que os benefícios sejam maiores que os riscos. Prevenir a contaminação por HIV de pais para filhos é algo bastante estabelecido por outros métodos”, diz.

Há uma semana, cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley alertaram que a mutação natural do gene CCR5 — nas duas cópias que cada pessoa possui — estava associada a um aumento de 21% na mortalidade antes dos 78 anos, segundo a análise de uma base de dados de 400.000 cidadãos do Reino Unido. “Não conhecemos todos os efeitos da mutação”, adverte o biólogo dinamarquês Rasmus Nielsen, coautor daquele estudo.

Nielsen acredita que o experimento do chinês Hei Jiankui tenha sido “imprudente”, dada a falta de conhecimento sobre a mutação e os possíveis erros da técnica CRISPR, ainda em fase experimental. “O uso da tecnologia em embriões é injustificável. Já se discutiu amplamente. Se Rebrikov repetir o experimento agora, será duplamente imprudente e carente de ética, mas suponho que as autoridades russas irão impedi-lo antes que chegue tão longe”, opina Nielsen.

Fonte: 

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/11/ciencia/1560264021_622736.html

 

 

“Com modificação genética em bebês, China criou uma nova estirpe de humanos”

Pesquisador lamenta a suposta criação de duas meninas modificadas geneticamente na China

MANUEL ANSEDE

 

27 NOV 2018 - 13:38BRST

O biólogo Lluís Montoliu, do Centro Nacional de Biotecnologia, em Madri.

O biólogo Lluís Montoliu, do Centro Nacional de Biotecnologia, em Madri.INÉS POVEDA

 

Lluís Montoliu há meses escutava “rumores” de que na China já existiam crianças editadas geneticamente. Na segunda-feira, o biólogo espanhol de 55 anos sentiu “calafrios” ao ver o vídeo em que o cientista He Jiankui anuncia “em tom messiânico” o nascimento de duas irmãs gêmeas com um gene desativado para torná-las imunes à infecção pelo vírus da AIDS. Montoliu, pesquisador do Centro Nacional de Biotecnologia e presidente fundador da Sociedade Internacional para as Tecnologias Transgênicas, utiliza a técnica CRISPR para criar ratos com doenças raras semelhantes às humanas, como o albinismo. Em sua opinião, ainda existem muitos riscos desconhecidos para se aplicar a ferramenta em embriões humanos com finalidades terapêuticas. No caso da China, além disso, não se trata de uma aplicação para curar uma doença hereditária. Os embriões eram saudáveis. É, como lamenta Montoliu, uma suposta tentativa de melhora genética da espécie humana.

Pergunta. O que acha do anúncio de He Jiankui?

Resposta. É preciso manter o ceticismo e assumir que ainda não sabemos se isso que nos contam ocorreu realmente. Já engolimos muitas notícias vindas da China que depois precisamos corrigir ou negar. Mais do que um comunicado científico, parece o anúncio de algumas das empresas do pesquisador, que tem empresas e, portanto, tem interesses em relação ao assunto. Legítimos, mas interesses no final das contas. Na terça-feira começa um congresso mundial de edição genética em Hong Kong. Melhor caixa de ressonância não há. Conseguiu uma enorme campanha de publicidade e agora terá filas enormes de casais que solicitarão a ele esse processo de edição genética.

"O passo seguinte é uma eugenia total. Dirão aos pais? O que os senhores desejam?”

P. É ético?

R. Foi aberta uma caixa de Pandora. É de uma irresponsabilidade colossal. Não é uma edição para curar. É uma melhora genética. O passo seguinte é uma eugenia total. Dirão aos pais: “O que os senhores desejam?”. O veto foi levantado, que é o que não queríamos que acontecesse, mas aconteceu onde sabíamos que ocorreria: na China. É preciso dizer claramente que essa experiência é ilegal em nosso país e além disso é ilegal em muitos outros países, incluindo os EUA e o Reino Unido, onde é possível a edição genética de embriões em pesquisa, mas não sua implementação [em uma mãe].

P. Como serão essas meninas?

R. O mais normal é que sejam meninas mosaico, com diferentes códigos genéticos em suas células. É algo absolutamente irresponsável. Ao longo de 20 ou 30 anos poderão desenvolver uma doença autoimune, em que as defesas de seu organismo ataquem suas próprias células. E as mudanças nessas meninas serão transmitidas aos seus filhos. O impacto bioético vai além das meninas. Os pesquisadores chineses criaram uma nova estirpe de humanos, no sentido estrito. A mensagem que estão enviando é terrível. Mais pessoas irão pedir que esses genes sejam desativados em seus filhos. Os autores cruzaram duas linhas vermelhas: um embrião humano editado geneticamente foi implantado e gestado. E, além disso, a aplicação é de melhora genética, não terapêutica.

"Foi aberta uma caixa de Pandora. É de uma irresponsabilidade colossal"

P. Há alguma forma de evitar essas experiências em humanos?

R. Nesse ano lançamos em Paris a Associação para a Pesquisa Responsável e Inovação em Edição Genética (ARRIGE, na sigla em inglês). O órgão foi incorporado à Unesco. Uma de nossas propostas é impulsionar a governança internacional, mas somos conscientes de que é muito difícil. Existem poucos tratados que tenham alcance mundial, além da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Talvez seja o momento de fazer um tratado internacional para regulamentar a edição genética. O que parece ter acontecido na China obrigaria a existência de uma legislação internacional.

P. O que pode dar errado no caso de China?

R. A desativação de um gene mediante edição genética, mediante CRISPR, é a aplicação mais simples de todas. Apesar disso, uma das irmãs gêmeas parece ter as duas cópias do gene desativadas, enquanto a outra irmã só tem uma das duas cópias desativadas, como admite o pesquisador. Acho inacreditável que ele o reconheça sem problema. Isso demonstra sua incapacidade para controlar o sistema. Eu pediria a esse pesquisador que nos contasse exatamente o que fez e como, para que pudéssemos avaliar qual é o impacto da experiência.

Fonte: 

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/26/ciencia/1543253567_659329.html

 


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