Ataques contra jornalistas tiveram aumento de 54% em 2019


Ataques contra jornalistas tiveram aumento de 54% em 2019, diz Fenaj

Das 208 ocorrências de ataques a profissionais da imprensa no ano passado, 121 foram provocadas pelo presidente Jair Bolsonaro, de acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)


AF Augusto Fernandes

postado em 16/01/2020 13:44 / atualizado em 16/01/2020 14:58

De acordo com a Fenaj, o chefe do Executivo federal provocou 114 ofensivas genéricas e generalizadas, além de sete casos de agressões diretas a jornalistas(foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) A quantidade de violência contra jornalistas cresceu em 2019, constatou a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Segundo a instituição, foram registradas 208 ocorrências de ataques à liberdade de imprensa no Brasil no último ano. O número é 54,07% superior aos 135 casos contabilizados em 2018. Dentre os tipos de violência, a descredibilização dos veículos de comunicação e dos profissionais da imprensa foi a mais recorrente, com 114 registros. Além disso, o presidente Jair Bolsonaro, sozinho, foi o responsável por 121 casos de ataques.

 

De acordo com a Fenaj, o chefe do Executivo federal provocou 114 ofensivas genéricas e generalizadas, além de sete casos de agressões diretas a jornalistas. De modo geral, as violências praticadas pelo presidente da República representaram 58,17% do total de agressões à imprensa contabilizadas em 2019.

 

"A postura do presidente da República – ou melhor, a falta dela – mostra que, de fato, a liberdade de imprensa está ameaçada no Brasil. O chefe de governo promove, por meio de suas declarações, sistemática descredibilização da imprensa e dos jornalistas. Com isso, institucionaliza a violência contra a imprensa e seus profissionais como prática de governo", alertou a presidente da Fenaj, Maria José Braga, no relatório "Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil".

A federação detalha que a maioria dos ataques de Bolsonaro foi feita em divulgações oficiais da Presidência da República (discursos e entrevistas do presidente, transcritos no site do Palácio do Planalto) ou no Twitter oficial dele. Foram 116 casos, já denunciados pela Fenaj em divulgação específica. A esses, somaram-se outros cinco casos de agressões feitas em entrevistas/conversas com jornalistas que não foram reproduzidas no site do Palácio do Planalto. 

 

Nesta quinta-feira (16/1), Bolsonaro criticou duramente o jornal Folha de S. Paulo, que produziu uma reportagem para denunciar o titular da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, como beneficiário de dinheiro de emissoras de TV e de agências de publicidade contratadas pela própria secretaria por meio de uma empresa da qual é sócio, a FW Comunicação e Marketing.

 

O chefe do Palácio do Planalto questionou a uma repórter do jornal se ela não tem “vergonha na cara” para fazer a tradicional portaria no Palácio da Alvorada, onde jornalistas ficam no aguardo de sua saída. Em seguida, Bolsonaro procurou se retratar com a profissional. “Eu sei que você não é dona da Folha, desculpa, você, como pessoa, não tenho nada contra você, mas você está cumprindo aqui o seu papel para tentar infernizar o governo. Qual pauta positiva a Folha teve no governo até hoje? Nada, zero. Zero”, acusou. No entanto, o presidente não deixou ela fazer outras perguntas, como quando quis questionar sobre a sanção do fundo eleitoral.

 

No último domingo (12/1), Bolsonaro usou o Twitter para atacar o Correio Braziliense. Ao comentar uma matéria do jornal sobre uma crítica dele próprio à decisão do Podemos de ingressar no Supremo Tribunal Federal (STF) com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra a tarifa de 0,25% que os bancos poderão cobrar dos clientes para manterem o cheque especial, o presidente escreveu: "São burros, canalhas ou os dois?"

Outros resultados

Das demais formas de discriminação a jornalistas, subiu a quantidade de assassinatos a profissionais deste ramo da comunicação. Os jornalistas Robson Giorno e Romário da Silva Barros, ambos com atuação em Maricá (RJ), foram assassinados. Em 2018, havia ocorrido um assassinato e, em 2017, nenhum. Para a Fenaj, isso representa uma "violência extrema contra a categoria". 

 

A instituição acrescenta que, das demais categorias de agressões diretas a jornalistas, também houve crescimento de episódios de injúrias raciais. Em 2019, houve dois casos de racismo e, em 2018, nenhum. Ameaças/intimidações e censuras, por outro lado, não registraram diferença em relação aos casos contabilizados em 2018: no ano passado, a Fenaj contou, respectivamente, 28 e dez casos. 

 

Nas contas da federação, houve diminuição numérica nas demais categorias de violência direta contra jornalistas. As agressões físicas – tipo de violência mais comum até 2018 –, representaram 15 casos, que vitimaram 20 profissionais, contra 33 ocorrências no ano anterior.

 

Em 2019, foram registradas também 20 agressões verbais, dez casos de impedimentos ao exercício profissional, cinco ocorrências de cerceamento à liberdade de imprensa por meio de ações judiciais e dois casos de violência contra a organização sindical dos jornalistas. Em 2018, foram, respectivamente, 27, 19, dez e três casos. 

Os jornalistas do sexo masculino, de acordo com a Fenaj, foram maioria entre as vítimas de violência. Esta tendência, registrada desde a década de 1990, foi mantida novamente em 2019, quando 59 repórteres homens foram agredidos (49,16% do total). Entre as mulheres, 26 (21,67%) foram vítimas de algum tipo de agressão. 

 

Os políticos foram os principais autores de ataques a veículos de comunicação e jornalistas, sendo responsáveis por 144 ocorrências (69,23% do total), a maioria delas tentativas de descredibilização da imprensa (114), mas também 30 casos de agressões diretas aos profissionais.

 

Números de violência por região

Norte - 6 casos (6,38%)

Nordeste - 11 casos (11,7%)

Centro-Oeste - 18 casos (19,15%)

Sudeste - 44 casos (46,81%)

Sul - 15 casos (15,96%)

 

Números de violência por estado

Acre - nenhum caso

Alagoas - 2 casos (2,13%)

Amapá - nenhum caso

Amazonas - 2 casos (2,13%)

Bahia - 1 caso (1,06%)

Ceará - 7 casos (7,45%)

Distrito Federal - 13 casos (13,83%)

Espírito Santo - 7 casos (7,45%)

Goiás - nenhum caso

Maranhão - nenhum caso

Mato Grosso - 4 casos (4,26%)

Mato Grosso do Sul - 1 caso (1,06%)

Minas Gerais - 6 casos (6,38%)

Pará - 1 caso (1,06%)

Paraíba - nenhum caso

Paraná - 8 casos (8,51%)

Pernambuco - 1 caso (1,06%)

Piauí - nenhum caso

Rio de Janeiro - 12 casos (12,77%)

Rio Grande do Norte - nenhum caso

Rio Grande do Sul - 5 casos (5,32%)

Rondônia - 2 casos (2,13%)

Roraima - nenhum caso

Santa Catarina - 2 casos (2,13%)

São Paulo - 19 casos (20,21%)

Sergipe - nenhum caso

Tocantins - 1 caso (1,06%)

 

Números de violência por tipo de mídia

Agências de notícias - 1 caso (0,8%)

Assessoria de imprensa - 3 casos (2,42%)

Rádio - 6 casos (4,48%)

Revista - 8 casos (6,45%)

Mídia não identificada - 15 casos (12,1%)

Mídia digital - 23 casos (18,55%)

Jornal - 33 casos (26,61%)

TV - 35 casos (28,23%)

 

Fonte: 

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/01/16/interna-brasil,820871/ataques-contra-jornalistas-tiveram-aumento-de-54-em-2019-diz-fenaj.shtml

 


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