Como a controversa manipulação genética pode levar à cura de doenças


Como a controversa manipulação genética pode levar à cura de doenças

By Rafael Nardini

DNA strands,

DYNAMIC GRAPHICS VIA GETTY IMAGES

DNA strands, Color

Graças a uma nova e controversa tecnologia chamada CRISPR, cientistas começam a avançar no entendimento e potencialmente na cura de algumas das doenças mais intratáveis do mundo.

Anemia de célula falciforme, HIV, esquizofrenia e autismo – os alvos são essencialmente todos os tipos de doença que envolvem DNA ruim.

O exemplo mais recente, de um estudo publicado este mês na revista Molecular Therapy, se concentra na distrofia muscular fascioscalpulohumeral, uma das formas mais comuns de distrofia muscular.

A doença é genética e provoca o enfraquecimento das fibras musculares do rosto, dos ombros e da parte superior dos braços ao longo do tempo. A doença não tem cura.

Entra em cena a CRISPR. Essa nova técnica de edição de genes permite que os pesquisadores alterem, deletem ou substituam genes em qualquer planta ou animal, incluindo seres humanos.

Pense na função de procurar e substituir letras ou palavras em um documento de Word – o procedimento é semelhante no genoma humano. Como disse um artigo do ano passado da revista MIT Technology Review:

“Isso significa que é possível reescrever o genoma humano à vontade”. Ou, como disse um bioeticista ao The Huffington Post, comparando o CRISPR com as outras técnicas de manipulação genética: “Tínhamos uma faca de manteiga, agora temos um bisturi”.

Pesquisadores de todo o mundo se perguntam como essa nova tecnologia vai mudar a abordagem de todo tipo de doença. Cerca de um ano atrás, uma equipe de pesquisadores que estuda a distrofia fascioscalpulohumeral decidiu experimentar a CRISPR. Eles já tinham uma boa ideia de como os milhares de genes do genoma humano causam a doença, mas até o desenvolvimento da CRISPR, as possibilidades terapêuticas eram limitadas.

A sigla CRISPR vem do nome em inglês para (respire fundo) “clusters de curtas repetições palindrômicas regularmente espaçadas”. O nome se refere tanto à técnica quanto a uma coisa, um complexo macromolecular.

O complexo consiste de uma mistura de dois tipos de material biológico, proteína e RNA. O RNA procura e se acopla ao gene-alvo, como um cão de caça perseguindo uma raposa, e a proteína faz o trabalho – o caçador atirando.

Por que caçar um gene? Não há uma resposta simples para essa pergunta. Os genes ruins são como as famílias infelizes de Tolstói – são ruins de várias maneiras diferentes. Às vezes o gene não produz a proteína que deveria. Neste caso, a CRISPR pode ser usada para substituir o gene preguiçoso por um que cumpra sua função.

Em outros casos, o gene não é preguiçoso, por assim dizer, mas é do mal – ele produz uma proteína que não deveria, uma toxina. É o que acontece com a distrofia fascioscalpulohumeral.

A equipe da Universidade de Massachusetts decidiu tentar usar a tecnologia para “desligar” um gene. Até o começo do estudo, ninguém tinha provado que a CRISPR pode ser usada para desligar um gene responsável por uma doença, e a equipe da universidade não tinha certeza se o experimento seria bem sucedido.

Mas ele foi um sucesso.

As implicações são muitas. A pesquisa pode abrir caminho para vários outros estudos, segundo Chris Himeda, principal autor do estudo. “Acho que o progresso em uma doença é progresso para todas, pois muitas dessas terapias e tecnologias vão ser de uso amplo”, disse ela.

Mas é importante não se empolgar demais. Himeda diz que não sabe especificar que outras doenças poderiam ser curadas por meio da inibição de CRISPR. Ela também afirma ser cedo demais para começar a usar a tecnologia em seres humanos. “Acho que temos motivos para ser otimistas e que algum dia teremos terapias para doenças genéticas, desde que não sejamos apressados”, disse ela.

O uso que Himeda fez da nova tecnologia pode envolver menos riscos que outras terapias. Substituir genes ruins, como já fizeram outros cientistas, significa extrair pedaços de DNA.

Como a técnica desenvolvida na Universidade de Massachusetts prevê apenas o desligamento de genes, são menores as chances de que haja dano permanente. Mas isso não significa que a técnica não tenha riscos. Himeda observa que, embora eles tenham conseguido uma redução de 50% na expressão do gene responsável pela distrofia, ainda não se sabe quais são os efeitos nos outros genes de uma célula.

“Ainda temos de saber mais antes de seguir adiante”, disse Himeda.

E há uma questão ética importante em jogo. Muita gente acha que é má ideia mexer com o genoma humano, não importa a técnica ou as intenções.

O fato de que a CRISPR é tão fácil de usar torna o assunto ainda mais assustador. E se a tecnologia cair nas mãos erradas? Se a ficção científica nos ensinou alguma coisa é que tudo pode dar muito errado.

Pense no filme Gattaca, de 1997, no qual crianças são concebidas por meio de engenharia genética para garantir uma vida perfeita e livre de doenças – enquanto outros, conhecidos como “in-válidos” são relegados a uma existência de trabalho pesado.

Himeda também expressa preocupação com as consequências da tecnologia. “As pessoas falam da ferramenta, e ela é muito promissora, mas também assustadora”, diz ela. “Não estamos prontos para Gattaca.”

Fonte: 

https://www.huffpostbrasil.com/2015/12/24/como-a-controversa-manipulacao-genetica-pode-levar-a-cura-de-doe_n_8868184.html

 

Por que ainda não se usa a modificação genética para eliminar doenças?

Ainda não temos os conhecimentos para fazê-lo de maneira suficientemente eficaz e segura

SUSANA BALCELLS COMAS

11 JUL 2018 - 09:21BRT

GETTY IMAGES.

Não usamos a edição genética para eliminar doenças em humanos porque ainda não sabemos fazê-lo suficientemente bem. Para fazer essas modificações genéticas a que você se refere, ou seja, que as pessoas possam ir a sua consulta de reprodução assistida e pedir para que façam uma intervenção genética para ter filhos sem doenças, ainda não temos os conhecimentos pra fazê-lo de maneira suficientemente eficaz e suficientemente segura.

O que não quer dizer que não exista interesse, também entre os cientistas. Acabo de voltar do Congresso Europeu de Genética Humana e o debate está colocado. E não só há interesse, também se está trabalhando nisso, a modificação da linha germinal dos embriões está sendo pesquisada. A linha germinal em genética é aquela transmitida aos descendentes. Ou seja, as modificações feitas aí não só afetam a pessoa em que são feitas como todos os seus descendentes as herdarão. Na comunidade científica há consenso sobre essas pesquisas. Por enquanto só isso, pesquisa. Ainda que, claro, em cada país a sua maneira e de acordo com suas leis. Em geral, a China é onde estão sendo feitas mais coisas nesse campo. A razão é que suas leis são mais permissivas porque suas preocupações éticas em relação a essas questões são menores do que as que existem no Ocidente. De modo que acredito que lá é o local onde serão feitas inicialmente.

Também se investiga a modificação da linha germinal dos embriões

Mas no Ocidente também se pesquisa. Por exemplo, nos Estados Unidos cujas leis impedem a realização de pesquisas sobre modificação genética da linha germinal com recursos públicos, há uma forte contestação no mundo científico para acabar com essa proibição. E há pouco mais de um ano, em fevereiro de 2017, a Academia Nacional de Ciências e a Academia Nacional de Medicina desse país publicaram um relatório em que defendiam a conveniência de se utilizar técnicas de edição genética sobre a linha germinal cujo propósito é exatamente acabar com algumas doenças.

Dessa forma, mesmo que ainda não seja possível, será em algum momento, provavelmente dentro de poucos anos. E aqui é essencial o que significou a técnica CRISPR à genética. Essa técnica é um método que serve para intervir no DNA que é onde se armazena toda a informação biológica herdada. O CRISPR permite acrescentar, modificar e interromper sequências genéticas com enorme precisão e de uma maneira muito simples. Começou a ser utilizado em 2013 e desde então é o protagonista de uma autêntica revolução. Mas sua utilização ainda não é perfeita.

O lógico é que as primeiras doenças que se consiga eliminar mediante edição genética sejam transtornos muito graves, que costumam ser doenças raras, como as autoimunes e as que conhecemos como as das crianças-bolha, etc... e que também foram as primeiras abordadas a partir da terapia genética. Em pesquisa sobe correção somática, por exemplo, ocorrem muitos avanços com talassemias e hemofilia. E é muito provável que entre essas primeiras afecções erradicadas também estejam os cânceres hereditários.

Mas há uma questão ligada à edição genética que separa completamente a realidade dos desejos das pessoas. Quando são feitas pesquisas públicas sobre se deve ser usada para erradicar doenças e para melhorar as espécie humana há uma grande parte da população que não tem nenhum problema em que seja usada para esse último fim, ou seja, para nos fazer mais altos, mais magros e com melhores músculos... E, entretanto, essa é uma possibilidade em que a comunidade científica não está trabalhando, nem mesmo como possibilidade.

E também é preciso levar em consideração outra questão: por mais que a edição genética avance, por mais conquistas que consigamos no momento de vencer definitivamente as doenças que conhecemos é inimaginável um mundo totalmente livre delas. Se a genética nos ensinou alguma coisa é que a biologia é mutação e as mutações ocorrem continuamente. Essas mudanças genéticas podem ser benéficas, mas também prejudiciais. Continuamente aparecem vírus novos e vírus velhos que mudaram. Como geneticista, acredito que é impossível um mundo sem doenças.

Pergunta enviada via Twitter por @Diegokpri050

Susana Balcells Comas é pesquisadora do departamento de Genética da Universidade de Barcelona.

Coordenação e redação: Victoria Toro

Fonte: 

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/06/ciencia/1530878574_922490.html

 


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