Conheça Angela Davis


ANGELA DAVIS: QUEM É E POR QUE ELA É IMPORTANTE | JAQUELINE CONCEIÇÃO

 

Jaqueline Conceição mestre em educação e pedagoga, conta um pouco da trajetória de Angela Yvonne Davis, ativista e filósofa, uma das mulheres mais procuradas pelo FBI nos anos 60.

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A vida e a luta de Angela Davis, desde os anos 1960 até o discurso na Marcha das Mulheres nos EUA

por: Vitor Paiva

Negra, mulher, ativista, marxista, feminista e, acima de tudo, lutadora, a educadora e professora americana Angela Davis certamente pertence ao segundo time – e não exatamente por escolha: mulheres negras que quiseram um mundo mais justo, especialmente no início dos anos 1960, não tinham outra possibilidade que não o árduo caminho da luta.

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Figura símbolo da causa negra na década de 1960 nos EUA, Angela voltou recentemente ao centro das atenções da mídia americana após seu contundente discurso na Marcha das Mulheres, em Washington, D.C., nos EUA – no dia seguinte à posse de Donald Trump. Sua história de resistência e luta, no entanto, é em muito a história da mulher negra americana do século XX – e volta muitos anos atrás.

Angela discursando durante a recente Marcha das Mulheres


Angela discursando durante a recente Marcha das Mulheres

Nós representamos as poderosas forças de mudança que estão determinadas a impedir que as moribundas culturas do racismo e do patriarcado heterossexual se ergam novamente”, ela disse, em seu recente e histórico discurso.

Quando mais de 5 mil pessoas, mulheres em sua maioria, marcharam nesse dia pelas ruas de Birmingham, no estado do Alabama, nos EUA – como parte das quase 3 milhões de pessoas que formaram a mais populosa manifestação política da história dos EUA – em parte elas também, mesmo sem saber, iluminavam a história de Angela Davis.

 

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Nascida em Birmingham quando esta ainda era uma cidade segregada, Angela cresceu em um bairro marcado pela monstruosa tradição de se explodir casas de famílias e igrejas nos bairros negros  – preferencialmente com as famílias ainda dentro dos locais.

Quando ela nasceu, uma das mais populares organizações civis da época era a Ku Klux Klan, simbolizada pelo hábito de perseguir, linchar e enforcar qualquer negro que lhe cruzasse o caminho. Assim, quando fala sobre as forças racistas, os extremistas conservadores e as consequências do racismo, machismo e da desigualdade social, Angela Davis sabe o que diz.

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Ainda adolescente ela organizou grupos de estudo inter-raciais, que acabaram perseguidos e proibidos pela polícia. Quando migrou para o norte dos EUA, Angela foi estudar filosofia na universidade de Brandeis, no estado de Massachussetts, onde calhou de ter como professor ninguém menos que Herbert Marcuse, o pai da “nova esquerda” americana, que advogava justamente em favor dos direitos civis, do movimento gay e da desigualdade de gêneros, entre outras causas.

Em 1963, uma igreja foi explodida em um bairro negro de Birmingham, e as 4 jovens mortas no atentado eram amigas de Angela. Tal acontecimento funcionou como o estopim necessário para que Angela tivesse certeza que não poderia ser outra coisa que não uma ativista na luta por direitos iguais – pelas mulheres, as mulheres negras, as mulheres negras e pobres.

As jovens mortas na explosão da igreja: Denise McNair, 11 anos; Carole Robertson, Addie Mae Collins e Cynthia Wesley, todas com 14 anos


As jovens mortas na explosão da igreja: Denise McNair, 11 anos; Carole Robertson, Addie Mae Collins e Cynthia Wesley, todas com 14 anos

A luta por liberdade do povo negro, que moldou a própria natureza da história desse país, não pode ser apagada com um gesto. Nós não podemos ser forçados a esquecer que a vida negra importa. Esse é um país ancorado na escravidão e no colonialismo, o que quer dizer, para o bem e para o mal, que a história dos EUA é uma história de imigração e escravidão. Espalhar xenofobia, atirar acusações de assassinatos e estupros e construir muros não vai apagar a história”.

Angela Davis era tudo que o status quo masculino e branco não tolerava: uma mulher negra, inteligente, altiva, senhora de si, orgulhosa de suas origens e de seu lugar, desafiando o sistema que oprimia e violentava seus pares sem jamais baixar a cabeça ou o volume de sua voz.

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E pagou por isso: em 1969, foi demitida do cargo de professora de filosofia da Universidade da California por sua associação com o partido comunista americano e com os Panteras Negras, ainda que fizesse parte de uma frente pela resistência não-violenta (e apesar da suposta liberdade de expressão de que os EUA tanto se orgulham). Nos primeiros anos da década de 1970, Angela viria a ser perseguida, colocada na lista dos 10 criminosos mais perigosos do país, condenada e presa sem provas e com altas doses de espetacularização.

 

O cartaz de Procurada de Angela
O cartaz de Procurada de Angela

Sua militância ganhou foco definido também na luta por reformas no sistema prisional e contra aprisionamentos injustos – e foi essa luta que a levaria justamente para dentro da prisão. Angela estudava o caso de três jovens negros, acusados de matarem um policial. Durante o julgamento, um dos três jovens, armado, tomou o tribunal e o juiz como reféns. O evento terminaria em confronto direto, com a morte dos três réus e do juiz. Angela foi acusada de ter comprado as armas utilizadas no crime, o que, pela lei da California, a ligava diretamente aos assassinatos. Angela Davis foi tratada como uma terrorista de alta periculosidade, e condenada e confinada em 1971.

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A reação à sua prisão foi intensa, e centenas de comitês pela libertação de Angela Davis criaram um verdadeiro movimento cultural por todo o país.

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Campanhas pela libertação de Angela
Campanhas pela libertação de Angela

Para se medir o impacto da prisão e a força do movimento, basta saber que as canções “Angela”, de John Lennon e Yoko Ono, e “Sweet Black Angel”, dos Rolling Stones, foram compostas em tributo à Angela. “Irmã, há um vento que nunca morre. Irmã, estamos respirando juntos. Angela, o mundo olha por você”, escreveu Lennon.

Em 1972, depois de um ano e meio de encarceramento, o júri (composto exclusivamente por pessoas brancas) concluiu que, mesmo que fosse comprovado que as armas haviam sido adquiridas no nome de Angela (o que não aconteceu), isso não era suficiente para liga-la diretamente aos crimes, e considerou a ativista enfim inocente.

 ANGELA DAVIS A CUBA EN 1972

“O esforço para salvar o planeta, para parar as mudanças climáticas (..) para salvar nossa flora e fauna, para salver o ar, esse é o marco zero do esforço por justiça social. (…) Essa é uma marcha das mulheres e essa marcha representa a promessa do feminismo contra os poderes perniciosos da violência do estado. E o feminismo inclusivo e interseccional nos chama a resistir contra o racismo, a islamofobia, o antissemitismo e a misoginia”, seguiu, já aos 73 anos, em sua fala na marcha recente.

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Depois da prisão, Angela se tornou uma destacada professora de história, estudos étnicos, estudos femininos e história da consciência em diversas das maiores universidades dos EUA e do mundo. A militância e a política, no entanto, jamais deixaram de fazer parte de suas atividades, e Angela foi uma voz forte desde os anos 1970 até hoje, contra o sistema carcerário americano, a guerra do Vietnã, o racismo, a desigualdade de gêneros, o sexismo, a pena de morte, a guerra ao Terror de George W. Bush e em apoio à causa feminista e gay de maneira geral.

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Passadas mais de sete décadas de luta, Angela foi um dos nomes mais importantes da Marcha das Mulheres, um dia após a posse do novo presidente dos EUA, Donald Trump – e para melhor entender o que está em jogo com as falas e as políticas de caráter racistas, xenófobos e autoritárias do novo presidente, basta ler as palavras ditas por Angela em seu discurso, no dia da Marcha.

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“Nós nos dedicamos à resistência coletiva. Resistência contra a biolionária especulação imobiliária e sua gentrificação. Resistência contra os que defendem a privatização da saúde. Resistência contra os ataques aos muçulmanos e aos imigrantes. Resistência contra os ataques aos deficientes. Resistência contra a violência do estado perpetrada pela polícia e pelo sistema carcerário. Resistência contra a violência de gênero institucionalizada, especialmente contra as mulheres trans e negras”, ela disse.

Imagem da Marcha das Mulheres em Washington
Imagem da Marcha das Mulheres em Washington

A Marcha reuniu mais de 3 milhões de pessoas pelo mundo, superando, em Washington, por muitas milhares de pessoas a própria posse de Trump, deixando claro não só que as posturas e políticas misóginas e sexistas perpetradas pelo novo governo americano não serão toleradas, como as tentativas de uma guinada conservadora, racista e xenófoba ainda maior por parte do país encontrarão resistência intensa por parte dos próprios americanos.

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Angela Davis, portanto, segue simplesmente lutando, com as armas e crenças que possui, desde os anos 1960, por um mundo melhor e mais justo. A boa notícia é que, mais uma vez, ela não está sozinha.

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Pelos próximos meses e anos nós teremos de intensificar a exigência por justiça social e nos tornarmos mais militantes em defesa das populações vulneráveis. Os que ainda defendem a supremacia do homem branco heterossexual patriarcal não passarão. Os próximos 1,459 dias do governo Trump serão 1,459 dias de resistência: resistência no chão, resistências nas salas de aula, resistência no trabalho, resistência na arte e na música. Isso é só o começo, e nas palavras da inimitável Ella Baker, ‘nós, que acreditamos na liberdade, não podemos descansar até que ela venha’. Obrigado.”

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© fotos: divulgação

Vitor Paiva

Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

 

Fonte: 

https://www.hypeness.com.br/2017/01/a-vida-e-a-luta-de-angela-davis/

 

4 reflexões para conhecer o pensamento de Angela Davis

Saiba quais são alguns dos argumentos da filósofa que é uma das principais vozes do feminismo negro

4 min de leitura

  • ISABELA MOREIRA

25 NOV 2016 - 12H42 ATUALIZADO EM 30 NOV 2016 - 15H46

 (Foto: Reprodução/Blog da Boitempo)

 

(Foto: Reprodução/Blog da Boitempo)

Angela Davis nasceu em janeiro de 1944 em Birmingham, cidade do estado americano Alabama e um dos principais centros de conflitos raciais durante os anos 1960. Durante a mesma década, deu início a seu envolvimento com as principais lutas políticas do movimento negro e feminista da época.

Ela estudou e se especializou em filosofia nas universidades Brandeis, nos Estados Unidos, Sorbonne, na França, e de Frankfurt, na Alemanha, período no qual foi aluna de Jean-Paul Sartre e Herbert Marcuse.

De volta ao seu país se origem, ela foi acusada de ter comprado a arma utilizada em um sequestro de um juiz, o que a tornou uma das dez fugitivas mais procuradas pelo FBI. Davis, que afirma que a arma foi utilizada sem seu conhecimento, foi presa, despertando a campanha “Libertem Angela Davis”, que mobilizou ativistas e intelectuais do mundo inteiro.

Dezoito meses depois, ela foi inocentada das acusações e, desde então, se tornou uma das principais vozes do feminismo negro. Um de seus principais livros, Mulheres, Raça e Classe, publicado nos Estados Unidos na década de 1980, acaba de ganhar uma edição brasileira pela editora Boitempo. Conheça algumas das principais reflexões da filósofa:

1 - RAÇA, CLASSE E GÊNERO ESTÃO ENTRELAÇADOS

Davis acredita que raça, classe e gênero são categorias que devem ser consideradas em conjunto. Durante conferência realizada em São Luís, no Maranhão, durante a 1ª Jornada Cultural Lélia Gonzales, ela explicou que apesar de vários argumentos defenderem a classe como o fator mais importante, é necessário considerar os outros aspectos para entender como, juntos, podem criar diferentes tipos de opressão.

“É preciso compreender que classe informa a raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero informa a classe”, diz. “Raça é a maneira como a classe é vivida. Precisamos refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre as outras.”

Como aponta Djamila Ribeiro, secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo e autora do prefácio do livro de Davis publicado recentemente no Brasil, a filósofa não pensa as categorias de forma isoladas porque elas estão subordinadas à mesma estrutura. “Precisamos pensar o quanto o racismo impede a mobilidade social da população negra”, diz. “Temos um problema de classe. E o racismo também cria uma hierarquia de gênero, deixando a mulher negra em uma situação muito maior de vulnerabilidade social.”

2 - O RACISMO ENCORAJA A VIOLÊNCIA SEXUAL

Em Mulheres, Raça e Classe, Davis explica que no período da escravidão, os patrões viam os corpos das mulheres negras como propriedade e se achavam no direito de fazer o que quisessem com elas. “A escravidão se sustentava tanto na rotina do abuso sexual quanto no tronco e no açoite”, escreve. “O direito alegado pelos proprietários e seus agentes sobre os corpos das escravas era uma expressão direta de seu suposto direito de propriedade sobre pessoas negras como um todo.”

Segundo a filósofa, a ideia do abuso sexual de mulheres negras como algo institucionalizado se tornou tão forte que persistiu mesmo após de a escravidão ter sido abolida. Estereótipos que retratam a mulher negra como promíscua e imoral, frequentemente utilizados na mídia, ajudaram a reforçar essa ideologia.

Davis aponta que o racismo têm ainda outras formas de incitar o machismo. “Embora as mulheres negras e suas irmãs de minorias étnicas tenham sido os alvos principais desses ataques de inspiração racista, as mulheres brancas também sofreram. Uma vez que os homens brancos estavam convencidos de que podiam cometer ataques sexuais contra as mulheres negras impunemente, sua conduta em relação às mulheres de sua própria raça não podia permanecer ilesa”, explica. “Esta é uma das muitas maneiras pelas quais o racismo alimenta o sexismo, tornando as mulheres brancas vítimas indiretas da opressão dirigida em especial às suas irmãs de outras etnias.”             

Angela Davis (Foto: Flickr/Universität Wien)

(Foto: Flickr/Universität Wien)

3 - OS PRESÍDIOS DEVERIAM SER ABOLIDOS

Em 2003, Davis lançou Are Prisons Obsolete? (Os presídios são obsoletos?, em tradução livre), no qual questiona a eficácia do sistema carcerário americano. A filósofa argumenta que os presídios foram desenvolvidos como uma alternativa “menos pior” de tortura e que o aumento de prisões não diminui o número de crimes.

“Durante minha carreira como ativista vi o número de presídios crescer com tanta rapidez que muitas pessoas de comunidades negras, latinas e nativo-americanas agora têm mais chances de ir para prisão do que conseguir uma educação decente”, escreve. “Estamos dispostos a rebaixar números ainda maiores de pessoas de comunidades oprimidas à uma existência isolada marcada por regimes autoritários, violência, doenças e tecnologias de seclusão que podem produzir instabilidade mental?”

Em entrevista ao Democracy Now em 2014, Davis afirmou que algum progresso em torno dessa questão tem ocorrido desde a publicação do livro. “Em vez de pensar em formas de reformar o sistema penitenciário, precisamos pensar em formas de, a longo prazo, ter menos pessoas atrás das grades para, no futuro, termos um ambiente sem prisões, no qual problemas sociais como analfabetismo e pobreza não signifiquem uma trajetória direta para a cadeia”, disse.

4 - O PAPEL DA RESISTÊNCIA

"Se todas as vidas importassem, nós não precisaríamos proclamar enfaticamente que a vida dos negros importa." Essa foi uma das frases ditas por Davis durante um discurso sobre direitos humanos na Universidade Estadual San José, nos Estados Unidos, em 2015. Para a filósofa, o movimento Black Lives Matter, que teve início com protestos sobre a morte do adolescente negro Trayvon Martin, ajudou as minorias a retomarem seus devidos protagonismos na resistência contra a desigualdade.

“Todos nós temos que participar para garantir que algo seja feito para frear os danos racistas que estão acontecendo com nossas comunidades em todo país”, afirmou ela. “Este é um momento histórico. Quando vocês tiverem minha idade, as pessoas vão perguntar: como foi ver o movimento revolucionário reascender?”.

Fonte: 

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/11/4-reflexoes-para-conhecer-o-pensamento-de-angela-davis.html

 


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