GORDOFOBIA E INCLUSÃO


Academia inclusiva ajuda pessoas a não sentirem vergonha do próprio corpo

O objetivo da Everybody é criar um espaço em que todos possam se exercitar sem se sentirem julgados

09/05/2017 - 11H05/ ATUALIZADO 11H0505 / POR GIULIANA VIGGIANO *
 (Foto: Everybody/ Reprodução)(FOTO: EVERYBODY/ REPRODUÇÃO)
A Everybody é uma academia americana situada em Los Angeles, na Califórnia, e é considerada uma das mais inclusivas do país governado por Donald Trump. Isso porque seus criadores têm como norte o bem estar de pessoas de todos os gêneros, raças, religiões, origens, sexualidade, idades e habilidades. Segundo Sam Rypinski, um dos fundadores, por mais que outras empresas do ramo tenham o mesmo objetivo, é difícil para grande parte das pessoas: “É incrível quantas barreiras são colocadas nas academias para a pessoa apenas se sentir bem”, afirmou ao portal Good Sports. Sim, a academia pode ser um ambiente opressor para quem não tem um corpo padrão.  O objetivo dos fundadores da Everybody era criar um espaço em que todos pudessem se exercitar sem ter vergonha dos próprios corpos e sem se sentirem julgados por ninguém. Por isso, Rypinski e sua sócia Lake Sharp resolveram escutar o que as pessoas têm a dizer: “Temos um conselho muito diverso que nos faz enxergar o que não conseguimos e erros que cometemos para que possamos preveni-los”, disse ele.
 

Gordofobia: por que esse preconceito é mais grave do que você pensa

O peso, isoladamente, não é um indicativo para sinalizar doenças. Mesmo assim, crescem os casos de preconceito contra pessoas gordas no Brasil

03/05/2017 - 15H05/ ATUALIZADO 15H0505 / POR GABRIELA LOUREIRO EDIÇÃO CRISTINE KIST
 (Foto: Julia Rodrigues) EVELYN DAISY, CRIADORA DA MARCA PRETA EMPONDERADA (FOTO: JULIA RODRIGUES)
Ohomem que casar com uma mulher gorda vai preferir trabalhar dobrado, ficar na rua, qualquer coisa, menos voltar para casa e encontrar uma mulher gorda”, disse o líder de uma instituição religiosa em um encontro de jovens entre 17 e 25 anos de idade. Na plateia, Evelyn Daisy pareceu ser a única a se importar. “Todos no salão aceitaram. Eu me senti mal, mas abri meus olhos e entendi que era preconceito”, conta ela, que se define como “preta, gorda, evangélica e feminista” e criou uma marca de roupas justamente com o objetivo de empoderar mulheres gordas e negras que, como ela, usam manequim além do número 52. Estudos indicam que, apesar dos esforços de conscientização, atitudes preconceituosas explícitas contra gordos aumentaram consideravelmente entre 2001 e 2010. Ainda é mais comum, no entanto, que o preconceito apareça travestido de elogio ou preocupação. Frases como “você tem o rosto tão bonito, por que não emagrece?”, “nossa, eu que sou mais magra que você não tenho coragem de usar biquíni” ou “seu marido é tão magro e você é tão gorda, dá certo?” são ouvidas por mulheres como Evelyn dia sim, outro também. Elas são reflexo da chamada gordofobia, o preconceito ou intolerância contra pessoas gordas.
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    Enquanto injúria racial e violência contra a mulher são consideradas crime no Brasil, o preconceito com pessoas gordas não apenas passa batido como é até encorajado por órgãos de saúde pública e campanhas de publicidade, especialmente durante o verão, quando os corpos estão mais à mostra. Mas por que, afinal, há tamanha intolerância com o corpo gordo?
 (Foto: Julia Rodrigues) "O CORPO DE PRAIA É O CORPO QUE QUER IR À PRAIA. EU ADORO PRAIA, ENTÃO O MEU CORPO É DEFINITIVAMENTE UM CORPO DE PRAIA", AFIRMA EVELYN DAISY (FOTO: JULIA RODRIGUES)
Tortura Medieval Para começo de conversa, essa discriminação não é novidade. No entendimento judaico-cristão clássico, a gula é um dos sete pecados capitais e, portanto, uma demonstração de fracasso moral. Durante o período medieval, o jejum era uma prática constante que valorizava a espiritualidade em detrimento do corpo. Mais tarde, com o desenvolvimento da medicina, pesquisadores e charlatões propuseram as mais variadas soluções para o suposto problema, de ovos de parasitas a engenhocas para eliminar a gordura e exercícios que mais pareciam tortura… Tudo em vão. "Estamos tentando há centenas de anos encontrar a solução da corpulência, mas nunca conseguimos. A partir do momento em que as primeiras relações entre problemas de saúde e gordura corporal começaram a ser publicadas, o gordo passou a responder por tripla acusação: falta de formosura, falta de retidão de espírito e falta de capacidade para gerenciar a própria saúde”, diz a nutricionista Paola Altheia. Criadora do blog Não Sou Exposição, Altheia notabilizou-se por desconstruir os mitos de emagrecimento e questiona os padrões de beleza: “Está mais do que na hora de compreendermos que o corpo gordo não é um erro, um pecado ou um crime”. Muitos dos mitos relacionados com o peso têm a ver com a ideia de que a obesidade é controlável — portanto, representa negligência. Mas o excesso de peso não é necessariamente resultado de comer demais. Vários outros fatores podem contribuir, como falta de sono, condições socioeconômicas, medicamentos, desequilíbrio hormonal, genética, problemas de saúde mental e até mesmo a poluição do ar. Ou seja, segundo Altheia, dizer que uma pessoa é obesa porque ela come demais e não se exercita muito é fazer uma generalização. Outro mito comum é a noção de que pessoas gordas não são saudáveis apenas por serem gordas. Hoje, a obesidade é identificada com o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC), um número obtido por meio da relação entre altura e peso. O Índice de Massa Corporal é uma classificação da antropometria, um segmento da antropologia que mede o corpo humano e suas partes, e começou a ser usado a partir do século 19 como forma de estabelecer normas sociais e definir o que seria um “corpo humano normal”. Essas tentativas de definir e categorizar pessoas entre normais e anormais estão fortemente associadas à eugenia, ciência que tenta determinar quais seriam os seres humanos com o melhor patrimônio genético — e que já serviu de justificativa para genocídio, escravidão e colonização. Há um termo para isso na chamada “sociologia da obesidade”: healthism (ou higiomania, em português), que é um julgamento moral sobre alguém com base em sua saúde ou preocupação em excesso com a saúde. De acordo com esse estudo, quem não é considerado saudável ou que faz coisas contrárias ao que é tido como tipicamente saudável acaba sendo visto como uma pessoa ruim ou com moral negativa. “Cada vez mais aumentamos nossas expectativas sobre as pessoas em termos de saúde e comportamentos saudáveis, e é uma expectativa disseminada, que permeia a vida social, profissional e educacional dos indivíduos”, diz Michaela Null, professora de Sociologia da Universidade de Wisconsin-Fond du Lac. “O estudo do healthism não é contrário à saúde, apenas questiona como entendemos a saúde, quem responsabilizamos pela saúde, como ela está relacionada a sistemas de poder e a crescente pressão para que as pessoas aparentem saúde.” Segundo Null, cuja especialidade é sociologia da obesidade, essa área do conhecimento se dedica a pensar criticamente sobre como o peso de alguém é frequentemente usado como indicador de saúde e como a ideia de ser magro resulta em projeções sobre a qualidade de alguém como pessoa.
 (Foto: Julia Rodrigues) "A PARTIR DO MOMENTO EM QUE A SUA MENTE ENTENDE QUE NÃO HÁ NADA DE ERRADO COM VOCÊ, VOCÊ TEM O CORPO IDEAL", DIZ O RAPPER MÉQUI (FOTO: JULIA RODRIGUES)
Saúde? Isso é relativo Estudo recente encabeçado por psicólogos da Universidade de Los Angeles (Ucla) apontou que usar o IMC para determinar índice de saúde levou à classificação incorreta de 54 milhões de americanos saudáveis como “doentes”. De acordo com a pesquisa, que cruzou dados de IMC com os de exames laboratoriais, quase metade dos norte-americanos considerados acima do peso conforme seus índices de massa corporal são saudáveis, assim como aproximadamente 20 milhões de obesos. Além disso, mais de 30% das pessoas com o IMC considerado normal na verdade não estão saudáveis. Conclusão? Obesidade não é sinônimo de doença, assim como magreza não é sinônimo de saúde. Algo que já sabia Luciane Barros, criadora do Africa Plus Size Fashion Week, um projeto pioneiro no Brasil que faz desfiles de moda e cria peças para mulheres gordas e negras com a missão de valorizar a beleza de diferentes tons e tamanhos. Durante mais de oito anos, Luciane praticou boxe profissionalmente, inclusive treinando para competições. O manequim 48 não foi empecilho para ela, cujos exames de saúde não apontavam qualquer problema com colesterol ou diabetes. Barros era gorda, saudável e lutadora de boxe. “Perceber que ser gordo ou magro não define saúde foi o que me impulsionou a criar o Africa Plus Size Fashion Week. Por preconceito, foi pregado que o gordo não tem saúde. E isso não é verdade, comecei a perceber que isso não me definia”, explica. Na realidade, conforme pesquisa publicada no periódico Archives of Internal Medicine, uma em cada quatro pessoas magras sofre dos riscos associados à obesidade. Ao mesmo tempo, 15% dos norte-americanos que são considerados “muito obesos” de acordo com seu IMC (o que equivale a mais de 2 milhões de pessoas), estão, de fato, saudáveis. O problema é que o IMC não traz dados sobre hábitos saudáveis, hormônios, taxas de colesterol e triglicerídeos, além de outros fatores que são detectados por meio de exames laboratoriais e dizem muito mais respeito à saúde de alguém do que o tamanho de um corpo.
"TODOS OS CORPOS DEVEM E MERECEM ESTAR EM QUALQUER LUGAR, INCLUSIVE NA PRAIA", AFIRMA LUCIANE BARROS, CRIADORA DO ÁFRICA PLUS SIZE (FOTO: JULIA RODRIGUES)

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