Mediação parental: caminhos para orientar as crianças na internet


Mediação parental: caminhos para orientar as crianças na internet

As telas podem ser usadas para fortalecer o vínculo entre adultos e crianças, evitando riscos e transformando a tecnologia em oportunidade de convívio

Mediação parental: uma mãe loira aparece na foto interagindo em harmonia com o filho pequeno enquanto segura um tablet e conversam sobre algum conteúdoiStock/arte Lunetas

  • Publicado em: 25.06.2020
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Os irmãos Henrique, 10, Sofia, 9, e Larissa, 8, precisam respeitar os acordos de uso da internet e o limite de tempo diário estabelecido em família. Para a mãe, Patrícia Camargo, jornalista e produtora do site Tempo Junto, essa relação é um exemplo de como a tecnologia pode servir como aliada no convívio com os filhos.

“O papel da mediação parental não é usar a internet para distrair os filhos quando preciso fazer outra coisa, mas sim uma maneira de estar junto, de me vincular a eles”

Conforme acompanha o crescimento das crianças, ela experimenta a internet para interagir, brincar e estimular o processo de raciocínio e segurança no uso de jogos, vídeos e aplicativos em geral. “A internet é o meio da rua: que tipo de orientações você daria ao seu filho se ele estivesse perdido e quisesse chegar a algum lugar? A quem ele deveria pedir informações?” Para isso, não existe outro caminho senão a mediação parental.

O primeiro acordo de Patrícia com os filhos é usar a internet na sala ou ambientes comuns quando o objetivo for entretenimento. Na casa deles, ninguém leva computador, celular ou tablet para o quarto. Acordo número dois: respeitar as regras e os limites de idade dos aplicativos, ou seja, nenhum dos filhos tem perfil em redes sociais, já que grande parte estabelece a faixa etária mínima de 13 anos. E o terceiro acordo é saber dividir o tempo de usar a internet para vídeos, jogos e aplicativos e compartilhar os dispositivos entre os irmãos. Neste caso, a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) para o uso das telas entre crianças de seis e 10 anos é de, no máximo, uma a duas horas ao dia, sempre com a supervisão de pais ou responsáveis.

É claro que, muitas vezes, é preciso rever os acordos, adaptá-los ou mesmo flexibilizá-los, como no momento atual da pandemia. Mas, como explica Patrícia, o importante é, sempre que possível, oferecer oportunidades de brincadeiras off-line, ensinando que boa parte das experiências essenciais não pode ser substituída pelo mundo virtual, seja pelo impacto das telas na saúde e no desenvolvimento das crianças ou pelos riscos presentes neste ambiente. Por esse motivo, outra recomendação da SBP é que as crianças desliguem as telas de uma a duas horas antes de dormir e evitem a conexão digital durante refeições.

Com a intenção de investigar como são educadas as crianças, a Viacom International Media Networks realizou a pesquisa Little Big Kids, publicada pela Viacom em 2017. Os resultados apontam que as crianças brasileiras fazem uso da tecnologia por 21 horas semanais. A pesquisa foi feita com 6.500 famílias de crianças entre dois e cinco anos de idade em 12 países.

Internet, uma máquina de fazer doces

As analogias parecem servir nos momentos em que faltam palavras para descrever o “novo”. Para uma geração que cresceu sem internet, assistindo à televisão – com grade de programação e previsão de horários próprios e impróprios para crianças, bastando trocar de canal ou desligar um botão -, talvez seja um desafio se tornar comandante das navegações multifacetadas do universo virtual.

“A internet é uma máquina de fazer doces, sem custo marginal: comer um ou 500 tem o mesmo preço”, atenta o professor e ativista na defesa dos direitos fundamentais no contexto da cultura digital, Paulo Rená. Segundo ele, o mais preocupante é a combinação da sobrecarga de informação, excesso de tempo de exposição e falta de experiência no consumo daquilo que é ofertado.

“Pescar” a atenção é uma das especialidades do ambiente digital. Em entrevistas realizadas pelo Lunetas, com crianças entre sete e 12 anos, de todos os Estados do Brasil, um dos relatos frequentes foi a capacidade de perder a noção do tempo durante o uso de dispositivos tecnológicos. Muitas delas não conseguem identificar o motivo, mas afirmam se manter presas e fascinadas pela conexão de ícones, vídeos e links, em cadeias intermináveis de conteúdo.

“Tudo aquilo que pode acontecer de bom ou ruim no mundo exterior está acessível na internet”

Nesse sentido, a semelhança com o consumo de doces segue valendo na mediação parental. De acordo com Rená, há situações de risco que chamam mais a atenção dos adultos, como exploração sexual infantilcyberbullying e fake news, mas que possuem canais específicos de denúncias e procedimentos de segurança mais difundidos.

“Não aceitar doce de estranhos”, por exemplo, costuma ser um conselho fora da rede, mas que deve ser mantido na internet. No entanto, como proporcionar autonomia na escolha de conteúdos mais saudáveis quando os adultos desconhecem todas as possibilidades disponíveis?

Como começar uma mediação?

Esses são cinco passos que podem ajudar adultos a construírem um roteiro de mediação, acompanhando o consumo de mídias e refletindo sobre a reação dos filhos em relação aos combinados, de acordo com cada dinâmica familiar, princípios e valores.

  • Quanto? Limite de tempo
  • O quê? Conteúdo
  • Onde? Em que locais, dentro ou fora de casa, os eletrônicos podem ser utilizados
  • Quando? Em que momentos do dia e da noite os filhos podem acessar as telas
  • Como? De que maneira os eletrônicos devem ser utilizados

Fonte: Livro “Tela com Cautela”

Atividades on-line: presença do adulto é fundamental

A alfabetização digital não ocorre de um dia para o outro. A experiência da jornalista Patrícia Camargo demonstra que só falar não basta, é preciso participar da experiência dos filhos, ensinando, por exemplo, a pular vídeos de publicidade infantil, desligar o acesso à webcam quando não estiver sendo utilizada, interpretar gifs, memes e bots ou não deixar chats paralelos atrapalharem as aulas on-line, nas plataformas de ensino a distância.

Ela também reforça que os pais precisam dar exemplo de bom uso, inclusive respeitando a privacidade dos próprios filhos ao não publicar fotos das crianças em suas redes sociais. Uma atitude aparentemente simples, mas que mostra a importância de ter cuidado com exposição de imagens e localizações que possam levar estranhos a identificarem endereços, rotina familiar e outras informações pessoais. 

Para Rená, a melhor forma de ensinar uma criança a se relacionar com a internet é proporcionando leitura crítica e postura ativa. “Antes de uma criança começar a consumir vídeos, ela pode brincar e aprender como fazer os próprios vídeos, mexer no equipamento, escolher o que dizer e enviar o material para amigos e familiares”, descreve. Uma maneira de perceber, na prática, que existem pessoas por trás dos conteúdos publicados e compartilhados.

No fim das contas, se a intenção é distrair a criança para poder realizar outras atividades com segurança e tranquilidade, a melhor opção para os adultos é oferecer entretenimento fora do ambiente digital.

“Dá muito mais trabalho a mediação parental no contexto da internet do que jogar bola com a criança”, brinca Patrícia. Mas não existe cartilha. Na opinião de Rená, esse é um processo de tentativas e frustrações diárias na relação com os filhos e que se deve ter como horizonte e não imposição, já que mães, pais e responsáveis somam uma série de outras responsabilidades em relação às crianças.

“Todos nós estamos aprendendo a lidar com a velocidade da internet. A mediação tem o objetivo de gerar menos preocupação, e não mais uma”

Como usar a internet com segurança?

Não existe um beabá para a mediação parental no uso da internet, pois todos nós – famílias, cuidadores e educadores – ainda estamos aprendendo a viver o ambiente digital. Algumas recomendações para o uso seguro da internet, contudo, podem ser discutidas com os filhos trazendo exemplos concretos que se aproximem da realidade deles. Alguns exemplos que podem ser temas de discussões sobre uso seguro da internet:

  • Cuidado com pessoas estranhas ou que você conheceu pela internet
  • Não faça com os outros aquilo que não gostaria que fizessem com você
  • Proteja a sua privacidade, como fotos, segredos, endereços, arquivos e emoções
  • Proteja a privacidade de outras pessoas, tendo cuidado com aquilo que compartilha
  • Respeite o limite de idade de site e aplicativos
  • Não acredite em tudo o que você lê
  • Cuidado com vírus e armadilhas: proteja seus equipamentos e senhas

Fonte: Guia de Internet Segura (Cert.br)

Fonte: https://lunetas.com.br/mediacao-parental-caminhos-para-orientar-as-criancas-na-internet/


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