Racismo nas Universidades


“Sentia que não fazia parte desse ambiente”: os desafios de ser negro e da periferia em uma universidade

Jovens estudantes relatam o racismo e os obstáculos no cotidiano do campus universitário

Na PUC-Rio, coletivos como o Nuvem Negra e o Bastardos da PUC lutam por mudanças institucionais.

Manifestação na PUC-Rio contra o racismo nos jogos jurídicos.

Manifestação na PUC-Rio contra o racismo nos jogos jurídicos. JULIANA DO NASCIMENTO COLETIVO NUVEM NEGRA

F.B.

Jornalista | Periodista - El PaísRio de Janeiro 12 SET 2018 - 13:55 CEST

Os primeiros meses de aula na faculdade foram os mais difíceis para Juliana do Nascimento Costa. "Eu me sentia desconfortável. Chegava em casa chorando porque não queria estar aqui, não me identificava", conta ela, que aos 21 anos estuda Cinema na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), um curso "muito elitista" no qual, segundo diz, os alunos geralmente possuem uma vivência muito diferente da sua: todos viajam para fora do país, falam inglês fluentemente, têm pais que trabalham em grandes empresas e conversam sobre grandes cineastas, músicos e escritores. No início ela nem sabia por que se sentia tão incomodada. Assim como não compreendia por que muitas pessoas pediam informações sobre como conseguir uma bolsa de estudos na universidade, já que no início pagava a mensalidade normalmente — só mais recentemente conquistou uma bolsa.

Costa, que é negra, diz que com o tempo foi percebendo como a cor de sua pele é determinante para que se sinta "um peixe fora d'água" na PUC-Rio, uma das melhores e mais caras universidades do país. "Foi aqui que eu me entendi como uma mulher negra e comecei a entender a importância de estar aqui e de persistir", explica. Moradora do Recreio, um bairro de classe média da zona oeste do Rio de Janeiro, ela é a primeira mulher de sua família a completar o ensino médio e a segunda pessoa a ingressar no ensino superior — a primeira foi seu pai. Já a instituição em que estuda é a mesma dos futuros advogados, juízes, promotores e defensores públicos que, há poucos anos atrás, cantaram a seguinte música nos Jogos Jurídicos:

Agora a UFRJ se fudeu, se fudeu

O pobre deles não é mais pobre que o seu.

Quer ajuda pro trem? Eu inteiro

Um trocado pro lanche? Eu dou

Aproveita que hoje eu to bonzinho,

To sentindo por você, Congo

No fim do mês a grana vai faltar, vai faltar

Vai no lixão lá da central catar lata!

Canções do tipo eram até pouco tempo frequentes e consideradas como parte da diversão nessa competição esportiva, realizada entre várias universidades. Mais precisamente até junho deste ano, quando, segundo relatos, jovens da torcida da PUC-Rio imitaram macacos diante de torcedores negros do time rival e uma menina jogou uma casca de banana em direção a Maicon Nascimento, um atleta negro da Universidade Católica de Petrópolis (UCP). Após a faculdade ter sido suspensa dos jogos deste ano, a vice-reitoria comunitária e o Departamento de Direito constituíram uma comissão disciplinar formada por três professores para apurar o ocorrido. Não apontaram culpados, mas reconheceram que falta representatividade na universidade e sugeriram a contratação de mais docentes negros.

Nascimentochegou a denunciar o ocorrido para a Polícia Civil, que identificou a garota responsável. Ela e outras 12 pessoas foram ouvidas e a corporação concluiu que não houve crime de injúria racial em seu ato, pedindo assim pelo arquivamento do inquérito. "Ela contou que tinha comido a fruta e estava com a casca na mão porque pretendia assim que acabasse o jogo sair do campo e achar um lixo. Mas durante a discussão contra a torcida da UCP, ela e as amigas se sentiram hostilizadas e em um 'ato reflexo' ela atirou o que tinha nas mãos para o alto", argumentou o delegado Claudio Batista Teixeira no início deste mês ao portal G1. Ele também disse que a jovem estava na torcida da PUC-Rio porque é namorada de um estudante de lá. "Todos os depoimentos colhidos mostram que não houve a intenção da jovem que atirou a casca de banana de atingir o atleta. E há ainda relatos de que a casca teve a rota desviada por outro estudante", acrescentou.

A PUC-Rio vem mantendo a discrição desde que estourou o escândalo. Além de ter constituído a comissão, lançou notas lembrando de seu pioneirismo na "implementação de políticas de inclusão educacional, racial e social, através de uma prática efetiva e consolidada de apoio a vestibulares populares, concessão de bolsas de estudo e apoio de material didático, além de outras iniciativas que propiciem a permanência do beneficiário na instituição". Também garantiu repudiar "qualquer discriminação baseada em raça, sexo, língua, credo e opções existenciais, temas que são objeto de debates, discussões e pesquisas em inúmeros Departamentos".

A diferença entre antes e agora é que o debate sobre o racismo —assim como sobre LGBTfobia, machismo, entre outros temas— vem ganhando uma amplitude sem precedentes na história do país. De tal modo que gritos de torcida, piadas ou comentários racistas e classistas são cada vez menos tolerados. Mas os obstáculos enfrentados por estudantes negros e das periferias —incluindo também os brancos que estão no segundo grupo— são inúmeros e vão muito além de comentários ou piadas, segundo conta Lucas Clementino. Oriundo de Mesquita, um município periférico vizinho ao Rio, conseguiu uma bolsa PROUNI, do Governo Federal, para cursar Arquitetura. Primeiro na Estácio de Sá e depois, após fazer transferência externa, na PUC-Rio. Trabalha desde os 15 anos e, ao ingressar no ensino superior, passou a conciliar o trabalho com a faculdade e os longos deslocamentos em transporte público. "Fazemos uma matéria que se chama Projeto em que temos uma demanda de produção muito grande. Toda hora tem que fazer alguma coisa nova. Quando entrei, ainda morava em Mesquita e não tinha tempo pra produzir porque o meu tempo era gasto no transporte público", conta.

A principal questão sempre foi o dinheiro, apesar de estar isento da mensalidade. "O material é absurdamente caro, as canetas são muito caras... No último período, eu e minha dupla de projeto tivemos que passar o cartão e parcelar uns 500 reais em maquete e prancha. E isso é o valor para um período e uma só matéria", conta Clementino. Ele explica que alguns professores compreendem e tentam ajudar, enquanto outros já dizem no primeiro dia de aula que é melhor "os alunos bolsistas desistirem se não se adequarem, porque a matéria é de tal jeito e não tem como mudar". Ele até propôs que alguns trabalhos fossem apresentados em slides ao invés das caras impressões, mas diz que alguns docentes ainda relutam por causa de "preciosismos". A solução passa por fazer menos matérias e atrasar sua formatura. "Existe uma exclusão por classe. Muitas pessoas que não conseguem pagar e não conseguem fazer o curso acabam desistindo, porque ele é pensado de tal jeito para determinado tipo de gente".

Otavio Leonidio, professor e diretor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio, conta que, desde que assumiu o cargo, em março deste ano, está aplicando mudanças para contemplar as demandas dos alunos negros ou bolsistas. Após fazer uma plenária com os estudantes, a primeira questão que apareceu foi a dos custos mencionados por Clementino. "Todos os desenhos coloridos podem agora ser projetados no projetor. E isso diminuiu em 80% os custos de plotagem [um tipo de impressão]. Só vamos pedir plotagem para o desenho técnico, mas estamos comprando uma impressora plotter de uso exclusivo dos alunos. O preço, super subsidiado, vai ser revertido para o centro acadêmico e para a manutenção da máquina", explica. "Estamos também fazendo um banco reserva de material de maquete que antes não era reaproveitado. E vamos também começar a subsidiar as viagens de estudo, que não terão os mesmos preços para quem pode e não pode pagar", acrescenta.

Também se diz pessoalmente sensível a questão dos longos deslocamentos feitos em transporte público e que, apesar de não poder interferir diretamente em cada aula, tenta que todos os demais professores também sejam compreensíveis. Garante, por fim, que a PUC-Rio como instituição está aberta e empenhada em fazer mudanças, sob a batuta do vice-reitor comunitário Augusto Luiz Duarte Lopes Sampaio. "Temos que dar boas vindas a essas mudanças, temos uma dívida tremenda que está na hora de saldarmos. E essa ideia de que vamos fazer uma conciliação muito apaziguada é ainda uma expectativa do mundo branco. É ainda a ideia de dominação. Claro que vai haver mal-estar, uma reação forte de quem perde privilégios", diz ele, que também defende incorporar nas bibliografias dos cursos autores e conhecimentos negros.

Os coletivos se fortalecem

Em momento crucial para um ensino superior brasileiro em crise, cujo financiamento e viabilidade entrou na rota dos candidatos a presidente neste ano de eleições, soma-se um desafio que vai além da democratização de seu acesso: como mudar mais rapidamente uma estrutura ainda considerada opressora de instituições públicas e privadas, que absorveram nos últimos anos um imenso contingente de pessoas a partir de políticas afirmativas, como os sistemas de cotas raciais e para alunos de escolas públicas, o programa de financiamento estudantil FIES e o sistema de bolsas de estudo PROUNI. Após esse choque de mistura racial e de classe, os campus tornaram-se palco de disputas por espaço.

"As universidades não eram vistas como um lugar em que negros pudessem normalmente estar. Quando você começa a mudar isso, muito por conta da luta do movimento negro e de democratização do acesso a educação, você tem um aumento dessa disputa. Ela fica mais evidente", explica Silvio Almeida, professor de filosofia do Direito da FGV e Mackenzie. Estudioso das questões raciais, Almeida argumenta que os coletivos negros universitários, mais visíveis também por conta das redes sociais, já não são apenas movimentos de resistência, mas que também demandam transformações na dinâmica universitária. "O fato de que a sociedade seja racista faz com que as instituições reproduzam essa dinâmica, mas não quer dizer que não possam se colocar numa postura contraria a isso. Senão, a gente não responsabiliza tanto as instituições como os indivíduos".

Lucas Clementino, por exemplo, cofundou em 2016 o coletivo Bastardos da PUC, uma referência a "Filhos da PUC", expressão normalmente usada por aqueles que estudam na instituição. O grupo, que reúne alunos bolsistas, negros ou não, começou como um grupo de WhatsApp em que os estudantes trocavam informações sobre lugares mais baratos para comer ou tirar xerox e se tornou uma grande rede de apoio entre eles. Em uma página no Facebook com 14.000 curtidas estão os vários relatos de situações e dificuldades cotidianas pelas quais acabam passando. "Existe uma discussão entre os alunos bolsistas sobre esse espaço da universidade, não só sobre o acesso a ele, mas também sobre permanência. Percebemos claramente que esse espaço não é pensado para nós e, apesar de existirem professores e funcionários sensíveis as nossas discussões, há uma estrutura muito grande que se organiza para se manter e perpetuar essa exclusão dentro do ambiente universitário".

O rapaz, assim como Juliana Costa e outros alunos e ex-alunos da graduação e da pós-graduação, também participa de atividades do Nuvem Negra. "É um espaço de acolhimento e fortalecimento dos negros na universidade, construído por pessoas negras para pessoas negras", explica Ana Carolina Mattoso, 28 anos e doutoranda em Direito. "É uma questão de articulação política no ambiente universitário, no sentido de pautar e reivindicar uma luta antirracista na universidade", acrescenta Mattoso. Seu colega, Lucas Obalera de Deus, ex-aluno de Ciências Sociais de 27 anos, argumenta que o racismo está institucionalizado "na ausência de disciplinas e de professores negros", assim como na "naturalização de você chegar na sala de aula e ser o único aluno negro". O resultado disso, ele diz, é o acúmulo de "uma série de violências, de microagressões".

O coletivo faz reuniões semanais, publica um jornal semestral, desenvolve várias atividades abertas e, principalmente, centra sua luta em conseguir mudanças efetivas na estrutura da universidade. "Queremos mexer no currículo, no plano pedagógico, acrescentando disciplinas que tratam das relações étnico-raciais, que apresentem uma epistemologia negra, um conhecimento negro. Estamos propondo aos departamentos disciplinas e emendas de disciplinas, para que haja uma transversalidade do tema racial", explica Mattoso. Não há dados sobre a proporção de alunos autodeclarados negros na universidade. No caso dos professores, são apenas 86 entre um total de 1.985, 4,3%. "É preciso que a universidade passe a ser uma pluriversidade. Isso impacta diretamente na formação de profissionais que vão atuar no mercado de trabalho. A ausência de uma reflexão de um estudante de Direito faz com que um juiz haja para manter a população negra encarcerada, que faça com que Rafaéis Braga se proliferem", exemplifica Obalera de Deus.

Mattoso fez sua graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um ambiente menos elitizado por ser uma instituição pública. Mas ainda assim hostil, em sua percepção. "Sempre fui confiante como estudante, mas nas relações você percebe por que não faz amizade com determinados grupos, ou não é incluído perto de determinadas pessoas. As turmas na UFRJ são enormes e divididas em guetos. Eu sempre ficava nos guetos dos pobres", diz ela. É o que conta também Aline Araújo Sampaio Conceição, ex-aluna de Direito da UNIRIO até 2012 — época em que ainda não possuía cotas raciais. "Éramos apenas quatro negros na turma, totalmente invisíveis. Aliás, uma turma que foi apelidada de senzala, o que soube por acaso", conta ela, hoje com 34 anos e mestranda na França. Além disso, ela diz que comentários racistas sempre aparecia nas conversas. "Coisas do tipo 'você é negra, mas...'. Depois desse 'mas' vem 'é inteligente, é esforçada, não é preguiçosa'. Mas no Jogos Jurídicos as coisas ficavam bem as claras", acrescenta.

Entre as situações mais constrangedoras que vivenciou está o dia em que uma professora ofereceu uma vaga de estágio na Defensoria Pública para seus alunos e colocou várias exigências. "O aluno tinha que ser oriundo de escola de ponta, como o Colégio Cruzeiro, Escola Britânica, São Bento e Santo Inácio. Segundo ela, alunos que vem desses colégios são aptos a escrever em língua portuguesa, outros não", conta Conceição. "Ou seja, eu me formei com nota 9,3, mas não estaria apta para ser estagiária dela. Esse é o tipo de coisa que remarca bem o lugar de cada um na sociedade da meritocracia".

O professor Almeida dá outro exemplo: "Ainda hoje, em sala de aula, os professores de Direito dão exemplos racistas para explicar casos, associando pessoas que cometem crimes com pessoas negras, como se isso fosse algo normal". Ele também explica que professores negros, como ele, possuem pouco espaço para discutir problemas do Brasil e do mundo. "Uma coisa que muito me incomoda é que o fato de que ser professor negro não significa que você apenas possa falar de racismo. Isso é um ponto central pra mim. Quando se é um professor negro, você acaba pautado pela questão racial. E tenho dito que eu pauto a questão racial, mas ela não me pauta". Assim, um ponto fundamental é que as universidades formem "intelectuais negros e negras que possam pensar em grandes questões nacionais e internacionais, independentemente de tratar diretamente da questão racial ou não". "O que eu entendo", ele prossegue, "é que não se pode tratar nenhuma dessas questões sem tratar da questão racial, que é um elemento analítico, um objeto científico".

Fonte:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/03/politica/1530632060_600428.html?fbclid=IwAR1QMFvLc5FzkKydRE_PzPBzPp8pgCaC8nO_720c0jc57Ra3vE5MeaS_RqQ

Estudantes negros enfrentam o racismo de professores e colegas em universidades

De xingamentos de ‘escravos’ a brincadeiras com os cabelos, negros convivem com ataques de racismo

Estudantes negros enfrentam o racismo de professores e colegas em universidades

JUNIÃO/PONTE

GIORGIA CAVICCHIOLI E MATHEUS MOREIRA (PONTE)28 ABR 2018 - 13:35 BRT

A estudante negra, que prefere não ser identificada, conta que, quando passou em publicidade e propaganda na Faculdade Cásper Líbero, na cidade de São Paulo, esperava se deparar com algum episódio racista quando pisasse naquele espaço — que, até poucos anos, era quase que exclusivamente branco, como todo o ensino superior do Brasil. “Por ser uma faculdade elitista, eu imaginei que sofreria algo”, diz. O que ela não esperava é que o racismo partisse de uma professora.

Durante uma aula, em 22 de março, folheando o álbum da Copa do Mundo de uma aluna, a professora comentou que na Croácia “só tem gente bonita” e, diante das imagens da seleção da Nigéria, disse que “queria saber como esse aqui faz pra pentear o cabelo, deve ser um ninho”, segundo o relato de alunos. No final da aula, a aluna e seus colegas procuraram a professora para questionar essa e outras falas dela que consideravam discriminatórias. Durante a conversa, a professora negou que fosse racista, disse que não havia racismo no Brasil (“tem até um outro negro na Cásper”) e ainda pôs a mão no cabelo da jovem, alegando “curiosidade”.

O episódio foi levado à direção da Cásper Líbero pelo coletivo de alunos Africásper. Nesta semana, a faculdade demitiu a professora, que não teve o nome divulgado. “Após analisar os apontamentos relatados pelo corpo discente e ouvir as partes envolvidas, a Faculdade Cásper Líbero optou pelo desligamento do docente por uso de expressões e atitudes inadequadas. A Faculdade reforça que repudia qualquer atitude de conotação discriminatória e preconceituosa, seja no espaço público ou privado”, afirmou a direção da faculdade, em nota divulgada nesta quinta-feira.

‘Um lugar que não é seu’

Episódios como esse têm se mostrado comuns no ambiente universitário, revelando o racismo dos mais escolarizados. Segundo dados obtidos pelo G1junto à Secretaria Estadual da Segurança Pública de São Pau lo, o estado registrou, entre 2016 e 2017, um caso de injúria racial em instituições de ensino a cada cinco dias.

O problema demora a ser percebido porque “parte da população entende que isso não deveria acontecer, porque o universo é composto por pessoas de nível de escolaridade mais elevado”, segundo Jefferson Mariano, doutor em desenvolvimento econômico, analista socioeconômico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), professor universitário e homem negro.

Porém, com o ingresso de mais jovens negros nas universidades e faculdades — de acordo com o Ministério da Educação, desde que a política de cotas virou lei, em 2012, 150.000 estudantes negros ingressaram em entidades de ensino superior no País entre 2013 e 2015 —, a busca dos brancos por defenderem privilégios de raça se torna mais explícito. Na cabeça de muitas pessoas, segundo Mariano, “o negro passa a ocupar um lugar que não é seu”.

Mariano lembra que, no início da carreira, enfrentou casos explícitos de preconceito. “Lecionei no interior de São Paulo em cursos de Administração e já cheguei ouvir afirmações racistas de alunos, foi uma situação bastante complicada. Em turmas de economia, muitos alunos achavam que não havia o menor sentido discutir inserção do negro no mercado de trabalho, por exemplo”, conta. “No meu mestrado tive um problema sério. No fim do curso, uma das minhas notas sumiu. O professor errou, mas foi à secretaria questionar a minha índole. A minha sorte é que a secretária localizou meus trabalhos nos arquivos. O professor não se desculpou.”

Ainda assim, os ataques racistas no ensino superior são apenas mais um dos vários obstáculos enfrentados por quem, para chegar ali, teve que matar vários leões pelo caminho. “O fato de um menino negro conseguir completar o ciclo do ensino fundamental é um ato heroico”, afirma o professor, para quem “o negro fica sempre com a sensação de que está no lugar errado”. De acordo com estudo do IBGE, realizado em 2015, a porcentagem de jovens negros entre 18 e 24 anos que chegaram até a universidade era 12,8%. Entre brancos na mesma faixa etária a porcentagem é de 26,5%. Números que mostram, portanto, que o acesso de negros ao ensino superior ainda é abaixo da média.PUBLICIDADE

Para um estudante negro chegar ao ensino superior, ele precisa, primeiro, sobreviver emocionalmente às outras etapas do ensino. “O negro sente o racismo na sua vida escolar desde o primeiro dia de aula. Já comentei que o pior lugar para um negro estar, aos sete anos de idade, é na escola. Não há lugar mais hostil”, afirma o pesquisador, que hoje leciona na Faculdade Cásper Líbero e na Saint Paul Escola de Negócios.

‘Racistas vão ter que pagar’

“Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono, avisa!”, disse um aluno branco estudante da FGV (Faculdade Getúlio Vargas) ao se referir a um colega negro. A frase foi compartilhada em um grupo do WhatsApp com uma foto de João Gilberto Lima. O estudante soube do ocorrido por parte da própria coordenação do curso de administração pública, do qual faz parte. Ao saber o que tinha acontecido, João registrou boletim de ocorrência no 4º DP (Consolação), por injúria racial.

Comentários racistas feitos pelo aluno Gustavo Metropolo, da FGV (à direita)

Comentários racistas feitos pelo aluno Gustavo Metropolo, da FGV (à direita)

Segundo João, ele sabia desde o princípio que tinha que denunciar o caso formalmente. “Fiquei chocado com o que tinha acontecido, mas o meu maior sentimento foi o de indignação por aquilo estar acontecendo no ambiente da FGV”, afirmou o estudante à Ponte. O agressor foi suspenso por três meses da universidade pela comissão de ética. Atualmente, a congregação da instituição analisa se dará outras punições.

Segundo João, ele já tinha sofrido outros casos de racismo na vida, mas que nada tinha sido parecido com o que sofreu na universidade. Para ele, é preciso que as pessoas que sofrem com o racismo “tenham a coragem de denunciar”. “Eu não tenho a utopia de achar que as pessoas vão deixar de ser racistas. Eu não vou mudar a cabeça das pessoas nem o que elas pensam, mas a partir do momento que elas externalizarem isso, elas vão ter que pagar por isso conforme está previsto na lei”, conclui.

O racismo à brasileira vem muitas vezes disfarçado de brincadeira. “Aqui no Brasil, as pessoas ofendem a dignidade da população negra dizendo que se trata de piada, mas isso se trata de racismo”, analisa o professor Tiago Vinícius dos Santos, doutor em direitos humanos pela USP (Universidade de São Paulo).

Para que casos de racismo sejam investigados dentro da academia, o professor afirma que é preciso criar um órgão responsável para apurar denúncias. “É fundamental criar um centro de diversidade ou um departamento das universidades”, afirma. Sobre estudantes vítima de racismo, Santos afirma que é preciso que os alunos façam uma denúncia no campo institucional e também nas delegacias. Dessa forma, ele afirma que as denúncias não irão só penalizar aquele que praticou alguma ofensa, mas também irão servir como objeto de reflexão para as instituições. ‘Odeio pretos e pardos’

O que não faltam são instituições acadêmicas precisando refletir sobre seu papel. Em março, um professor do Instituto Federal de São Paulo publicou nas redes sociais um texto, que mais tarde classificaria como mal compreendido, em que proferia uma série de ofensas e concluía: “Odeio pretos e pardos”. Alunos do instituto fizeram a denúncia à diretoria e à reitoria do Instituto e organizaram pelo menos duas manifestações para cobrar a exoneração de José Guilherme de Almeida, que lecionava no curso de Geografia. O Instituto emitiu nota afirmando repúdio ao racismo e prometendo apurar o caso.

Professor apagou perfil nas redes sociais após a publicação.

Professor apagou perfil nas redes sociais após a publicação. REPRODUÇÃO/FACEBOOK

Dois estudantes da instituição relataram perseguições. José Guilherme teria reprovado Christopher de Lima Machado e Fábio Santos Souza em duas disciplinas apesar de ambos os estudantes terem notas suficientes para passar de ano. De acordo com Christopher, “ele faz questão de falar que os bandidos periféricos roubaram todos os Iphones que ele já teve”.

“Tive aulas com ele e é torturante”, diz Fábio. “Ele não aceita confronto de alunos contra as coisas que ele falava em aula. Sempre que havia confronto em sala de aula, os alunos negros sofriam represálias, mesmo que entre os envolvidos também tivessem brancos”, afirma. A Ponte tentou entrar em contato com o professor para que ele se posicionasse sobre os casos e as acusações, mas ele não respondeu às tentativas da reportagem.

Não é fácil para as instituições de ensino superior entenderem as questões relacionadas ao racismo. Em junho de 2017, a estudante de jornalismo Thamires Menezes ouviu de um professor da Universidade Tiradentes, em Aracaju (SE), que ela não poderia ser âncora de jornal por conta do cabelo afro, estilo black power, que ela usava na época. Thamires denunciou o caso, mas afirma que colegas, professores e direção da universidade começaram a ver a vítima como culpada. O acontecimento levou a aluna a abandonar o curso.

“Ainda estudei durante o período passado, fazendo meus trabalhos sozinha, mas vi que estava pagando faculdade em vão. O professor continua lá, a coordenadora também. O caso no Ministério Público foi arquivado e minha advogada sumiu. O processo nunca aconteceu e pronto. Fui lá tranquei o curso. O pior foi sair do estágio. Eu amava trabalhar lá”, lamenta.

Thamires Menezes e o cabelo que “não servia” para o telejornalismo

Thamires Menezes e o cabelo que “não servia” para o telejornalismo ARQUIVO PESSOAL

Agora, a estudante mudou de estado para terminar o curso. Há três meses, ela foi para Salvador e afirma que pretende voltar aos estudos no próximo período. Mesmo com o sofrimento que passou, ela afirma que encara tudo como um “novo desafio”.

Sobre o episódio, a Unit afirma que não houve racismo. “O ocorrido se deu em uma dinâmica comum de sala de aula, quando os alunos e professor discutiam sobre resumos da área de Comunicação que abordam acerca da postura do profissional em bancadas de telejornais, sem expressar qualquer opinião pessoal sobre a matéria. (…) Portanto, ficou constatada a inexistência de qualquer manifestação depreciativa, forma de discriminação ou preconceito, por qualquer motivo (sexo, idade, cor, preferências, convicções, etc.) por parte do professor em relação a aluna em questão”, afirma a universidade em nota. A Unit diz que “os fatos foram apurados internamente (pelos setores de Ouvidoria, que registra as reclamações, e Comissão de Ética, que atua na apuração das denúncias envolvendo docentes e discentes), pela autoridade policial de Sergipe e outros órgãos estatais, no âmbito de suas competências processuais”, sem que o crime fosse constatado.

Luta e vitória

Para Larissa Mendes, aluna da Escola Politécnica, unidade da USP que em 121 anos de existência formou apenas sete mulheres negras, o preconceito se manifestou de formas menos diretas. “Dentro da Poli o racismo se dá quase que da mesma forma que o Brasil como um todo: ninguém é diretamente racista”, conta. “Eu nunca ouvi nenhum comentário evidentemente racista, mas, sempre que eu descia do circular na Poli, as pessoas iam me empurrando, porque na cabeça delas eu não faço parte do perfil de pessoas que desce no ponto de ônibus da maior faculdade de engenharia do país.”

Larissa faz parte da Poli Negra, coletivo que impulsionou a discussão sobre cotas na faculdade, obrigando os alunos de lá a enxergarem que havia uma questão racial a ser debatida. “Até então, por mais que um ou outro aluno pobre e negro falasse alguma coisa, as pessoas achavam normal olhar pros lados e só ver gente igual a eles: brancos, ricos, vindos de bons colégios”, diz. Realizando diversas reuniões com os centros acadêmicos, a Poli Negra conseguiu impulsionar um plebiscito que, em 2017, apontou que 70% dos alunos apoiavam as cotas. No mesmo ano, quando o Conselho Universitário da USP aprovou a implantação de cotas sociais e raciais. “Foi uma vitória imensa”, conclui.

Fonte:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/28/politica/1524918551_164874.html?fbclid=IwAR1zI7PiuXUVpr17A6YwG2Jhih7-aDl7egzT9BU5mvPbymRcFFsKKAAcYD8

Estudantes denunciam professora por aulas racistas em universidade

Denúncia traz à tona o limite entre liberdade de expressão e propagação de conceitos racistas, no curso de Psicologia da Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo

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Estudantes denunciam professora por aulas racistas em universidade

PALOMA VASCONCELOS (PONTE)7 JUN 2018 - 16:07 BRT

Há pelo menos um ano, o Coletivo Enegrecer vem recebendo denúncias sobre o conteúdo da aulas de uma professora do curso de Psicologia da Universidade São Judas Tadeu (USJT). No ano passado, o grupo falou com a coordenação do curso, mas não recebeu nenhuma resposta da universidade. A ausência de posicionamento fez com que o Coletivo divulgasse uma nota de repúdio.

A estudante do 5º semestre de psicologia, Kezia Silva Castro, de 21 anos, relata que as falas discriminatórias da professora Maria Esmeralda Mineu Zamlutti eram frequentes. “Eu tive aula com essa professora nos meus dois primeiros anos de faculdade, em 2016 e 2017. Desde o meu primeiro ano, ela já reproduzia as mesmas falas racistas e discursos homofóbicos e machistas. São discursos que ela carrega há muito tempo e acaba atingindo diretamente a gente, acaba violentando diretamente a gente”, conta.

Henrique Santos, 25 anos, do 6º semestre do curso de psicologia, que teve aulas com a professora em 2015 e 2016, expôs com detalhes, em entrevista à Ponte, os discursos discriminatórios da professora. “Ela falava que havia uma miscigenação pacífica em que negros e brancos conviviam graças a essa troca de códigos genéticos. Assim, os filhos, que ela chamava de ‘mulatos’ e ‘moreninhos’, viviam em paz, portanto o racismo não existia. Ela dizia isso ‘não existe mais racismo nos dias de hoje’, porque você via o negro fazendo todas as coisas que ele era impedido de fazer anteriormente”, conta.

A temática da relação entre mulher negra e os estupros cometidos na época da escravidão era outro assunto discutido em sala de aula. “Eu presenciei a esterotipação da minha raça, principalmente da hipersexualização do corpo da mulher negra. Ela falava que a mulher negra era sensual e que ela já tinha uma sexualização natural, aquela coisa da carne, e que, quando o europeu veio para cá, ele, que estava acostumado com as brancas que não tinham a mesma sexualidade, olhou para as negras e as desejou. Então, quando aconteciam os estupros e nasciam os filhos dessa miscigenação, ela falava que era natural, afinal de contas a mulher negra tinha a sua sexualidade. Ela hipersexualizava uma mulher e justificava uma série de estupros e assassinatos para com a raça negra, para com a mulher negra”, menciona Henrique.

Um possível traço autoritário da docente também era perceptível para os seus alunos. “Alguns alunos se manifestavam e chamavam ela depois das aulas para conversar, mas não surtia efeito. Por mais que a gente tentasse não era bem aceito. Ela atuava de maneira bem autoritária, ela desprezava muito o interlocutor”, conta Santos.

“As aulas dela eram assim, ela mandava por e-mail um texto pra gente, um texto dela. Aí ela direcionava as discussões na sala e aí ela começava a discussão. Só que ela que conduzia a discussão e, se alguém falasse alguma coisa que ela não concordasse, ela já silenciava a pessoa e passava para uma pessoa que ela já sabia o que ia falar”, relata Kezia.

Depois da nota de repúdio do Coletivo Enegrecer, um ex-professor da USJT realizou publicações em defesa da docente acusada de racismo. Na postagem, Fabio Ulanin chama os alunos do Coletivo de ‘negros nazistas’. “Acontece que na Universidade São Judas os alunos criaram um tal ‘Coletivo Negro’, seja lá que diabos signifique isso. Dizem que lutam pela valorização do negro, o que é mentira: lutam para que os negros permaneçam excluídos e inferiorizados frente a qualquer outro grupo social. Criaram um gueto e querem viver no gueto e ai daquele que criticar o gueto”, diz a postagem do psicólogo.

A postagem foi recebida com um misto de tristeza e revolta pelos alunos. “A sensação de ler a declarações do professor Fábio e de quem concordava com ele é a mesma sensação de quando a gente ouve aquela professora falar na sala de aula. É inacreditável que em 2018 as pessoas ainda pensem dessa forma. Dá medo de saber que, só de você existir, as pessoas já se incomodam. Elas se incomodam de você ocupar determinados espaços e farão de tudo para você não estar ali. A sensação é de tristeza, mas também de força, porque você sabe que tem que lutar para que tudo isso acabe”, desabafa Kezia.

“Foi bastante difícil observar as opiniões dele. A gente basicamente exigiu respeito, exigiu posicionamento da universidade por conta de uma docente que estava fazendo um desserviço. E aí o professor fala uma besteira daquele e isso é revoltante. Pior é ver que, dentre os seguidores dele, ele encontra bastante voz, voz que ecoa esse discurso absurdo. A sensação é de tristeza, de achar que eu estudo para fazer parte do mesmo cenário profissional desse indivíduo”, afirma Henrique.

Pelo menos três alunos ligados ao Coletivo Enegrecer fizeram um boletim de ocorrência contra a professora Maria Esmeraldo Mineu Zamlutti por “praticar discriminação”, conforme o artigo 20 da Lei de Crime Racial (7716/89).

Liberdade de expressão ou discurso de ódio?

Em entrevista à Ponte, o professor da ECA/USP Dennis Oliveira explica que a liberdade de expressão dentro e fora das salas de aula precisa preservar os direitos humanos, uma vez que “o direito à liberdade de expressão não pode ser absolutizado”. “Se a gente observar que ele é um direito humano e também entre os direitos humanos você tem direitos de garantia a vida, direito contra a discriminação, você não pode invocar um direito humano, como a liberdade de expressão, para atacar outro direito humano, que é o direito à humanidade. Nesse sentido, invocar o direito de liberdade de expressão para atacar o outro, para agredir, para ter uma narrativa racista e preconceituosa, machista e homofóbica, não é plausível, não é possível. É aquela velha frase: o direito de uma pessoa vai até o limite de outra pessoa”, defende.

Maria Sylvia de Oliveira, advogada e presidente do Geledés, Instituto da Mulher Negra, alerta que, juridicamente, as falas da professora não podem ser enquadradas como racismo, mas pondera que uma inadequação da professora ao trabalhar o tema. “Do ponto de vista jurídico, não creio que a gente possa enquadrar isso como racismo. De certa forma ela está sendo racista, mas ela está sendo racista dentro do desconhecimento e despreparo para essa disciplina. Podemos avaliar, por exemplo, que ela não tem competência ou condições simplesmente porque ela não entende nada de história. Se a referência dela é Gilberto Freyre, ela deveria se atualizar e mudar o referencial teórico dela”, explica. “O que eu percebi das falas dessa professora é despreparo, desconhecimento, e isso é grave. Sendo ela professora e sendo ela professora de uma universidade, isso é inadmissível”, critica Maria Sylvia.

Uma das críticas atribuídas à professora é a adoção unilateral de autores como Gilberto Freyre em sua base teórica. Para Dennis, o autor deve ser discutido em sala de aula, mas com contexto e desde que desperte visão crítica, não como uma versão única a ser propagada. “É evidente que ele tem uma postura racista, preconceituosa e fundamenta esse racismo. E é importante estudar Gilberto Freyre, mas de uma forma aprofundada e crítica para entender de que forma as suas ideias consolidaram no Brasil um pensamento de que o racismo não é problema, ou de que você não tem um preconceito racial de forma mais evidente. Tem que ser estudado sim, mas estudado de uma forma crítica, não de uma forma meramente lírica ou eufemística, como alguns autores colocam”, ressalta o professor.

Para a Ponte, Maria Sylvia reforça que, apesar de não poder ser enquadrado no crime de racismo, as declarações e mesmo a postura da professora diante do contraditória trazido por alunos evidenciam marcas de racismo estrutural e institucional. “É racismo estrutural na medida que essa professora, baseada no aprendizado que ela teve, não procura outra literatura se não a que foi apresentada para ela, no caso do Gilberto Freyre. Então, nesse sentido, o racismo é estrutural, porque é a forma como a sociedade e os outros professores veem a questão racial e questão das mulheres negras e indígenas nesse período histórico que ela estava comentando”. A advogada também aponta que o caso explicita um racismo institucional na medida em que uma coordenadora, na função de responsável, inclusive pedagógica, do curso tem notícia da situação e se exime de qualquer resolução. “Ela sabe que essa professora não tem capacidade para dar aula, e ela não faz nada. Assim ela propaganda e incentiva o mal funcionamento de uma instituição, no caso uma instituição privada, para essas alunas e alunos negros que frequentam essa universidade”, explica Maria Sylvia.

Histórico de casos de racismo

Geovanni Vieira, 25 anos, integrante do Coletivo Enegrecer e aluno do curso de Direito, afirma que não é a primeira vez que o nome da São Judas é ligado diretamente a casos de racismo. “As recentes denúncias de racismo não são casos isolados. Ano após a ano, surge um caso e a forma como a universidade lida com isso tem se mostrado ineficaz. É preciso que, além de um coletivo negro para apontar, propor debates e reflexões, a própria faculdade reconheça que este é um problema institucional e, assim, se debruce sobre essa realidade que ela tem insistido em ignorar.”

A Universidade São Judas teve em sua história outros casos de racismo. Em 2016, uma aluna do curso de Direito postou uma declaração racista em relação aos usuários da linha Vermelha do metrô. “Nada contra, mas na estação do Brás abrem a porta da senzala, sou o contraste do vagão!”, dizia a postagem.

No mesmo ano, um professor do curso de comunicação realizou, por meio de redes sociais, declarações de intolerância contra políticas afirmativas em referência à trajetória da judoca Rafaela Silva, negra, lésbica e periférica, que “nunca precisou do feminismo ou de cotas, conquistou tudo por mérito próprio”.

Uma fonte que preferiu não se identificar contou à reportagem que a Universidade São Judas, em pareceria com o Centro de Integração Empresa-Escola, está organizando uma excursão ao ‘Painel WW’ webprograma do jornalista William Waack, demitido da Rede Globo depois do vazamento de um vídeo com conteúdo racista. O e-mail enviado pela universidade dizia que os primeiros 15 alunos que manifestassem interesse participariam do evento. Em resposta a este e-mail, o Coletivo Enegrecer se posicionou de maneira contrária à excursão.

Outro lado

Procurada pela Ponte, por meio da assessoria de imprensa, a Universidade São Judas informou que não tolera qualquer tipo de discriminação em suas instalações e trabalha, diariamente, pela construção de espaços inclusivos e respeitosos para todas as pessoas, além de apoiar e se orgulhar da diversidade que abraça. A instituição também alega que, desde 2017, se reúne regulamente com os coletivos para pensar em conjunto em soluções que façam a universidade cada vez mais segura.

Sobre a denúncia do Coletivo Enegrecer, a USJT informa que “a Comissão de Inquérito Disciplinar Interna já foi instaurada e terá o apoio do Comitê de Ética para investigar o caso denunciado pelo coletivo Enegrecer. Iremos seguir o Código de Conduta e disposições legais a respeito, sempre obedecendo ao contraditório e a ampla defesa, na qual todas as partes envolvidas serão ouvidas a fim de definir a melhor solução”.

A assessoria da universidade comunicou, ainda, que “o inquérito disciplinar foi aberto e segue em sigilo. Somente quem está na banca tem acesso ao andamento do processo e, essa banca, conta com um representante indicado pelo Coletivo Enegrecer. Além disso, durante o Simpósio de Saúde da São Judas, aconteceram três palestras do Coletivo ao longo da programação, com foco em saúde. O que demonstra que Universidade e representantes do Enegrecer estão andando juntos”. Em contrapartida, o Coletivo garante que a Universidade só deu espaço para uma palestra na semana da saúde, no dia 22/5, intitulada “Cuidado e bem-estar em saúde da população negra”. Procurada pela Ponte, a São Judas informou que o inquérito permanece em sigilo.

A professora foi procurada pela reportagem, mas, até o momento de publicação da matéria, não houve retorno.

Fonte:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/07/politica/1528397124_238801.html?fbclid=IwAR0T-oaZVmdrJ_R2Y-zNLVbaMfeVyyZ-fDE3EIRVUKN6CDHTcm_zlfAbM78


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